Água no Rio Jaguari, em Extrema-MG.
ÁGUA PARA TODOS Água no Rio Jaguari, em Extrema-MG. © Erik Lopes/TNC

Água para além dos muros da fábrica

Por meio de parcerias com o setor privado, a Coalizão ajuda a fortalecer a segurança hídrica para todos.

É preciso o esforço de toda uma comunidade para cuidar de um manancial. Parafraseando o provérbio africano - “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” -, as fontes de água não são uma responsabilidade restrita ao dono da terra por onde ela brota. Por servirem a todos nós, são também um assunto coletivo.

A Coalizão Cidades pela Água é o reflexo dessa nova compreensão integral dos ecossistemas naturais, onde cada um faz a sua contribuição e agrega valor para o projeto comum de proteger bacias hidrográficas através da conservação de florestas e garantir segurança hídrica para o abastecimento das maiores metrópoles do país.

Desde 2015, 12 grandes companhias brasileiras participam deste movimento, ao lado de representantes do setor público e da sociedade civil, elevando a massa crítica de agentes com efeito multiplicador de resultados. Para essas empresas, trata-se de uma notável mudança de modelo mental: entrar para a Coalizão implica em expandir o olhar de dentro da fábrica para além de seus muros.

“Porque de nada adianta ter excelência em eficiência hídrica se você está numa região degradada”, diz Samuel Barreto, gerente nacional de Água da TNC Brasil. “A escassez de água, um problema mundial cada vez mais frequente, nos diz que a lição de casa corporativa ficou mais complexa. Os negócios também dependem de uma bacia hidrográfica saudável, o que significa fazer mais do que a lei determina”. 

De nada adianta ter excelência hídrica se você está numa região degradada.

Gerente Nacional de Água - TNC Brasil

Na lista, há tanto empresas com histórico de atuação em sustentabilidade até “early adopters” nas iniciativas ligadas à água (por não serem grandes consumidores), que enxergaram o perigo financeiro de um risco hídrico.

O sinal amarelo da má qualidade das bacias entrou no radar do setor privado após a seca de 2014 que atingiu regiões do Brasil com alta densidade demográfica e forte presença da indústria, como o Sudeste. Reservatórios com volumes baixíssimos, disputas por outorgas e a iminência de parar operações em setores altamente dependentes de água assustaram o mercado. “Houve uma preocupação grande, inclusive de precisar interromper a produção de um consumo de primeira necessidade”, lembra Janaína Rodrigues, gerente de meio ambiente da Kimberly Clark para a América Latina, sobre a situação da maior fábrica da empresa no país para produção de papel higiênico, em Mogi das Cruzes. 

Área de captação de água na Represa do Jaguari, em Joanópolis-SP, no ano de 2015.
Área de captação de água na Represa do Jaguari, em Joanópolis-SP, no ano de 2007.
Reservatório do Jaguari Comparação entre o nível de água no reservatório em 2007 e 2015.

A Kimberly Clark está no rol das empresas que já atuavam na agenda ambiental quando 2014 chegou e colocou em xeque muitas das escolhas em políticas públicas para a água. A empresa havia se aproximado da TNC dois anos antes. A intenção era dar profundidade às discussões sobre uma de suas mais importantes matérias-primas, depois de finalizadas as ações de reúso de água, tratamento de efluentes e conscientização dos colaboradores. “Em certo momento a gente percebeu que tudo o que estava na nossa mão, nós fizemos. E então nossas ações ficaram restritas. Queríamos ampliar nosso conhecimento sobre água”, diz ela. Era o embrião de um trabalho que depois ganharia fôlego na Coalizão. “Fizemos um estudo de pegada hídrica de fábrica em Mogi para promover ações mais assertivas. Conseguimos ativar todos os planos definidos, o que nos deixou em posição muito boa. Quando veio a crise hídrica, percebemos como aquelas ações tinham sido importantes e como seria igualmente importante seguir expandindo nessa agenda”. 

Programa Nascentes

É um mecanismo do Estado de São Paulo bastante importante dentro da lógica de financiamento da conservação de mananciais porque traz recursos advindos da compensação ambiental. Em Jaguariúna, ele financiou 100% dos plantios de mudas em áreas de restauração. 

E a crise hídrica provocou o improvável: rivais nos negócios juntaram-se em 2015 para a formalização da Coalizão Cidades pela Água, dando  ímpeto às ações preservacionais que garantiriam a disponibilidade de água para as cidades brasileiras. Concorrentes no mercado de bebidas, Ambev, Pepsico e Coca-Cola anunciaram um ano depois uma parceria para proteção das nascentes dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), em São Paulo, onde vivem mais de cinco milhões de pessoas e onde estão também algumas das principais plantas dessas empresas. As medidas incluem a restauração de florestas em áreas de mananciais por meio do Programa Nascentes, o apoio a políticas públicas para a recuperação florestal e o engajamento do produtor rural na preservação das fontes de água.

“A TNC já trabalhava com o setor privado em diversas iniciativas. A Coalizão vem para dar escala e alavancagem à estratégia de soluções baseadas na natureza e fortalecer parcerias, acima de qualquer lógica concorrencial", diz Gilberto Tiepolo, gerente-adjunto de Água da TNC Brasil.

“Não era mais só uma questão ambiental. O que estávamos fazendo era mitigação dos riscos do negócio”, lembra Antonio Werneck, à época Diretor Executivo da TNC no país. “Sem água, uma fábrica não dá os retornos necessários. Mas há  também um risco reputacional de a empresa estar do lado errado da equação. Nós perguntávamos: o seu fornecedor pode deixar de fornecer peças por falta de água?  E víamos que o responsável por supply chain não tinha pensado nisso. Ou no consumidor, que precisa de água para usar o produto - caso da Unilever, que vende detergente. Então, começou a ficar claro que há toda uma cadeia produtiva a montante e a jusante. E o que a gente oferecia era uma solução para o sistema como um todo”. 

A Coalizão colocou empresas concorrentes trabalhando juntas pelo mesmo objetivo, como no anúncio publicado em 2016, em que Coca-Cola e Pepsi uniram forças pela iniciativa.
JUNTOS PELA ÁGUA A Coalizão colocou empresas concorrentes trabalhando juntas pelo mesmo objetivo, como no anúncio publicado em 2016, em que Coca-Cola e Pepsi uniram forças pela iniciativa. © TNC Brasil

Bacias prioritárias

Guandu represanta quase 85% da água que abastece a região metropolitana do Rio de Janeiro. Já na região metropolitana de São Paulo, o Alto Tietê abastece 15% da população e o sistema Cantareira quase 50%.

A Coalizão - enriquecida com participação do setor privado, de comitês e agências de bacias e uma miríade de atores locais -, elevou a outros patamares os projetos que a TNC, através de seus Fundos de Água, e parceiros já realizavam nas bacias hidrográficas. Ações que já demonstravam resultados no campo, como a restauração em áreas dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, em São Paulo, e na bacia do Guandu, no Rio, puderam ser expandidas a outras regiões do país. Os últimos cinco anos foram de fortalecimento de engajamento com a chegada de lideranças fortes (caso da Mantiqueira e Belo Horizonte), tração na identificação de áreas prioritárias (Curitiba, Vitória e Brasília) e expansão de áreas-piloto (como no Rio de Janeiro). Mas sobretudo, os projetos ganharam prioridades e foco.

“A preocupação com a água sempre foi uma prioridade, mas a gente não tinha esse olhar técnico de como ser mais estratégico e gerar mais resultado. Não seria possível atuar em todas as bacias simultaneamente, então a gente tinha que priorizar aquelas com maior estresse hídrico e melhor custo-benefício - os maiores retornos ecossistêmicos com os menores investimentos. E a TNC foi fundamental para estruturar esse caminho”, diz Mariana Bazzoti, gerente de sustentabilidade da Ambev, empresa âncora da Coalizão. Com 32 cervejarias no país, a Ambev sabe que precisa ter um olhar atento aos recursos hídricos: a água representa nada menos que 90% da composição da cerveja.

A Ambev escolheu seis projetos iniciais, a maioria dentro do escopo da Coalizão: Jaguariúna, Jundiaí, Jacareí (São Paulo) e Rio de Janeiro, ambas com plantas
grandes e em bacias críticas para o abastecimento, a do PCJ e Guandu; além de Sete Lagoas (Minas) e Anápolis (Goiás, iniciado em 2020). 

Sem água, uma fábrica não dá os retornos necessários. Mas há também um risco reputacional de a empresa estar do lado errado da equação.

Ex-Diretor Executivo da TNC Brasil

Um dos maiores desafios nesses projetos é mensurar e valorar os serviços desempenhados pelos ecossistemas naturais, tais como a filtragem da água da chuva e a captura de carbono. Diferentemente de indicadores econômicos, medir a evolução da resposta da natureza é algo mais complexo e exige um acompanhamento de décadas para ter validação científica. Na região metropolitana de Curitiba, por exemplo, esses indicadores incluem a exportação de sedimentos das estradas rurais aos rios - ou seja, a terra que se desprende de estradas mal planejadas e acabam nos cursos de água, elevando o assoreamento - e o volume de matéria orgânica jogada nos rios, dada a falta de saneamento rural (problema, aliás, que se estende a quase todas as bacias). Pontos como esses contribuem para a má qualidade da água que chega aos reservatórios.

Monitorar e mensurar resultados também requer ferramentas, protocolos e expertise específicas. Tecnologias como a InVEST (Integrated Valuation of Ecosystem Services and Tradeoffs), de modelagem de serviços ambientais, desenvolvida pela TNC em parceria com a Universidade de Stanford, ou a metodologia AAR (Área Ativa do Rio), têm sido utilizadas com precisão pela Coalizão.  

Metodologias

A TNC utiliza várias ferramentas e metodologias científicas que permitam definir as áreas prioritárias para a implementação dos projetos e monitorar seus resultados.Elas fornecem uma base técnica para a tomada de decisão em relação às melhores alternativas para a gestão do uso da terra em uma bacia hidrográfica.

“Isso ainda é uma questão em aberto porque não podemos nos apropriar de um resultado num universo de poucos anos”, diz Mariana. “Temos um dashboard onde monitoramos vários indicadores. Ainda não podemos trazer resultados de quanto aumentou a disponibilidade hídrica, mas conseguimos dizer quanto foi preservado e restaurado e outros dados que tangibilizam melhor a importância dessas ações”.

No Rio, essa tangibilização ocorreu através da quantificação da diversidade de aves que retornaram à floresta restaurada por meio do programa Produtor de Água e Floresta na sub-bacia de Rio das Pedras, em Rio Claro - inserida na bacia do Guandu, que  responde a 80% do abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro. Um levantamento de 2017 apontou a existência de 63 espécies, um aumento de 91% em relação ao diagnóstico realizado em 2013. A quantidade de aves é um indicador de biodiversidade de alta relevância para o projeto.

O retorno dos pássaros à floresta permitiu que a Coalizão explorasse uma nova frente em Rio Claro, o Turismo de Observação de Aves, com impacto social e de renda para a comunidade. No distrito de Lídice, um centro de observação de aves está sendo estruturado, com a criação de um núcleo de apoio, capacitação e a produção de um guia de espécies. 

Imagem aérea de floresta nativa em Extrema-MG.
RESTAURANDO A VEGETAÇÃO NATIVA Imagem aérea de floresta nativa em Extrema-MG. © Erik Lopes/TNC

Além disso, as áreas definidas para restauração e conservação para fins hídricos em Rio Claro se sobrepõem ao corredor ecológico Tinguá- Bocaina da Mata Atlântica, em uma rica intersecção de objetivos que visa proteção da água e da biodiversidade e mantém paisagens naturais icônicas, agregando ainda mais valor aos projetos, diz Hendrik Mansur, gerente de projeto do Fundo de Água do Rio de Janeiro - Estratégia de Água do Brasil.

Outro resultado tangível dos projetos é a promoção de uma alimentação saudável. A Coalizão, junto com a Adasa, a agência reguladora de saneamento e energia do Distrito Federal, iniciou um trabalho com associações de produtores na bacia de Piripirau para elevar a área de agricultura orgânica. Em Santa Catarina, o assunto também já é debatido dentro da Aresc, a agência reguladora de saneamento do Estado. Produtos orgânicos fazem bem à saúde humana, aos solos e cursos de água porque não recebem agrotóxicos. Despejados nas lavouras, eles infiltram em lençóis freáticos e, depois de carregados para os rios, são detectados em testes de qualidade hídrica nas cidades.

Devanir dos Santos, superintendente de planejamento e programas especiais da Adasa, a agência reguladora de saneamento e energia do Distrito Federal, diz que a disponibilidade de água limpa e suficiente para todos, somada a todos os co-benefícios gerados pela boa gestão de bacias hidrográficas, deveria ser uma meta inquestionável para o setor privado. “Quando um agricultor faz uma prática conservacionista na sua propriedade, ele não está produzindo água só para ele. Ele eleva a oferta de água para que os outros usem, para que a indústria use na cidade e a cidade use no abastecimento. Pense no racionamento de São Paulo em 2014: muitas indústrias operaram com 40%, 50% de capacidade. Quanto custa isso? Se tivessem usado 10% desse custo para programas de incentivo ao produtor, não teríamos chegado ao colapso hídrico a que chegamos. Perdemos todos”. Por esse motivo, ele diz que é preciso muito mais engajamento empresarial, para além dos muros e das empresas que tomaram a dianteira na Coalizão Cidades pela Água.

É preciso uma comunidade inteira para quebrar paradigmas.