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Soja em expansão

Poucas commodities são tão onipresentes quanto a soja. Um produto agrícola básico, tanto para consumo direto quanto para aditivos, a soja está presente na margarina, na maionese, nas barrinhas de cereais, nos molhos para saladas e nos suplementos proteicos. O óleo de soja é usado tanto para cozinhar quanto para embalar, sendo sua casca uma das grandes fontes de alimentação para o gado. Ela é também utilizada na fabricação de velas, giz de cera, estofados, papel-jornal reciclado, bancadas, painéis particulados e em uma variedade de outros produtos de uso diário.

A demanda global por soja está crescendo e a produção está se expandindo rapidamente, tornando-a uma das principais causas da destruição de ecossistemas naturais na América Latina. No Brasil, responsável pela produção de cerca de um terço da produção mundial de soja, em alguns lugares a expansão da produção de soja em alguns lugares está gerando o desmatamento de ecossistemas ameaçados e riquíssimos, como a floresta amazônica e o Cerrado brasileiro. Esses habitats não só abrigam espécies que não existem em qualquer outro lugar do mundo, eles  constituem-se em grandes reservatórios de carbono, assim a continuidade da sua degradação  poderia dificultar os esforços para a mitigação das mudanças climáticas.

Gerenciar o crescimento da produção da soja é da maior importância para a preservação desses ecossistemas. A soja é a maior commodity do Brasil, gerando em 2016 exportações brutas e processadas de mais de US$24 bilhões — a maior parte para atender a China, onde ajuda a alimentar uma população de 1,4 bilhão de habitantes e contribui para uma economia de US$12 trilhões. O desafio que temos a frente é encontrar terras onde se possa cultivar soja de forma sustentável e manter as florestas intactas, ao mesmo tempo em que maximizamos o retorno econômico.

Esta não é uma missão impossível, mas exige que as empresas e os produtores rurais tenham fácil acesso a dados econômicos, sociais e ambientais, e que estes sejam de melhor qualidade e mais precisos. O objetivo do Agroideal, uma ferramenta online recentemente expandida, é exatamente preencher esta lacuna. O Agroideal permite que seus usuários gerem mapas de exposição ao risco e oportunidades sustentáveis em uma determinada região e avaliem a ameaça de expansão sobre a vegetação nativa. Os usuários podem incorporar estas informações às estratégias de desenvolvimento regional para planejar a expansão em áreas que já foram desmatadas anteriormente, assim reduzindo a conversão de áreas naturais e minimizando os impactos sociais e ambientais.

Uma iniciativa conjunta de 18 instituições brasileiras e internacionais, envolvendo traders, bancos, empresas de consultoria, instituições de pesquisa e ONGs, o Agroideal hoje em dia disponibiliza informações sobre as regiões do Cerrado e da Amazônia, identificando estes riscos e oportunidades em mais de 73 por cento do território nacional. As futuras atualizações desta ferramenta resultarão em sua expansão para outras regiões da América Latina , incorporando partes da Argentina e do Paraguai e, no futuro, poderão incluir outras commodities além da soja – uma ferramenta com foco na pecuária já está em seu estágio inicial de produção.

As ações do Agroideal apoiam um movimento crescente das empresas em todo o mundo, cujo objetivo é melhorar a sustentabilidade de suas cadeias de abastecimento. Em 2014, dezenas de grandes empresas assinaram a Declaração da ONU sobre Florestas e Clima, comprometendo-se a eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento da carne, soja, óleo de palma e celulose/papel até 2020. Por estar entre os maiores produtores de carne e soja, o Brasil tem um papel importantíssimo a desempenhar na efetivação desses compromissos.

Compromissos como estes que são cruciais, uma vez que a produção de alimentos tem um impacto significativo sobre a nossa capacidade de cumprir metas globais, como o Acordo de Paris sobre o Clima e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Para acompanhar a elevação dos padrões de vida e o gosto sofisticado, os cientistas e a Nações Unidas estimam que o abastecimento global precisará crescer entre 40 e 50 por cento, o que poderia levar ao aumento da pressão sobre as paisagens em todo o mundo se o crescimento econômico não for cuidadosamente gerenciado. Se vamos alimentar uma população crescente e, ao mesmo tempo, preservar o habitat e minimizar as mudanças climáticas, precisamos ser mais inteligentes em relação à forma pela qual produzimos nossos alimentos.