Uma raposa observa por trás de arbustos na Patagônia.
Patagônia, Argentina. Uma raposa observa por trás de arbustos na Patagônia. © Belen Martinez /Concurso de Fotos TNC 2019

Artigos e Estudos

Oito passos para proteger o melhor da Terra

Existe uma regra de gerenciamento que diz que, se você não pode medir algo, não pode gerenciá-lo. Olhando de maneira geral, nós podemos medir a Terra. Todos os seus metros quadrados. Pelo menos os metros em terra. E nós sabemos que ela é finita. No entanto, a trajetória de desenvolvimento dominante até o momento nos mostrou que, apesar de algumas exceções notáveis, a maioria dos humanos tem dificuldade de gerenciar a terra. Também tratamos os oceanos como se fossem ilimitados.

No entanto, a maneira como vemos nosso relacionamento com a terra e o mar pode ser decisivo para nossa civilização e também ajudar a determinar o destino de outras criaturas na Terra. O mundo está sofrendo uma degradação maciça em seus ecossistemas,  com um declínio e extinções sem precedentes da fauna silvestre. Tudo isso diante de uma possível mudança climática descontrolada.

Os governos e empresas agora têm a oportunidade de dar um passo crítico e coletivo para deter esse declínio: concordar em proteger pelo menos 30% do mundo na terra e no mar.

Os governos e as empresas agora têm a oportunidade de dar um passo crítico e coletivo para deter esse declínio: concordar em proteger pelo menos 30% do mundo na terra e no mar. Essa oportunidade chegará em breve: 196 governos devem se reunir em Kunming, China, na Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas, para adotar novas metas globais de biodiversidade. O atual conjunto de metas globais para acabar com a perda de biodiversidade e restaurar os ecossistemas, conhecidos como Alvos de Aichi, expira nesse ano.

Se adotado em 2020, essa nova estrutura funcionará como um roteiro mundial para a conservação da vida selvagem e de habitats, além de atualizar as metas dos países para conservação e uso sustentável dos recursos vivos. A novo Quadro também deve se alinhar melhor com os Objetivos globais de Desenvolvimento Sustentável, enfatizando o papel crítico da natureza na saúde e no bem-estar humanos.

No momento, as atuais metas de áreas protegidas para conservação da biodiversidade são de 17% para terra e 10% para oceanos, e o mundo está chegando perto de atingir a meta terrestre. Então, como seriam 30%? Em primeiro lugar, sejamos claros: qualquer objetivo de proteção não é uma desculpa para a exploração excessiva e destruição de regiões que estejam fora das 'áreas protegidas'. Já invadimos os espaços naturais em demasia e precisamos reverter os impactos da produção e do consumo onde pudermos.

Não existe ciência que defina um limite universal para a proporção do planeta que precisa ser protegida, ou seja, nenhum limiar mágico no qual a Terra entre em uma zona segura. Mais proteção é definitivamente melhor, e todos podemos concordar com isso. E, junto com mais proteção, a gestão criteriosa, baseada na ciência, equitativa e participativa deve ser nossa luz e princípio orientador. Precisamos proteger o que há de melhor e melhorar a qualidade do resto.

Um Grou-canadense decolando no nevoeiro de uma manhã de outono.
Grou no nevoeiro. Um Grou-canadense decolando no nevoeiro de uma manhã de outono. © Gary Grossman /Concurso de Fotos TNC 2019

Para aproveitar ao máximo as metas de 30% de áreas preservadas até 2030, seguem nossas oito principais conclusões:

1. A representatividade é crucial.

Na TNC, acreditamos que a representatividade é crítica. Na sua forma mais simples, "representatividade" significa que devemos proteger um pouco de tudo. Invariavelmente, o conceito de representatividade tem um foco no habitat, mas também pode ter um foco na espécie. Nossos cientistas desenvolveram novas métricas para medir a representatividade de um sistema de área protegida. Não faz sentido cumprir as metas de 30% simplesmente conservando rochas e gelo improdutivos. Em vez disso, devemos procurar conservar 30% de todos os tipos de habitat e continuar a melhorar a extensão, qualidade, representatividade e resiliência dos habitats naturais e quase naturais até que as taxas de extinção caiam para níveis históricos. Isso está muito longe de acontecer. E vale tanto para o oceano quanto para a terra.

2. Também nos importamos com a resiliência.

Resiliência significa que uma área será menos prejudicado e se recuperará mais rapidamente dos impactos esperados. É provável que alguns locais sejam muito mais resistentes do que outros a fatores estressantes, como mudanças climáticas ou distúrbios, e precisamos deles.

3. Precisamos restaurar as terras.

Podemos perguntar logicamente onde a restauração é mais necessária? Quase um terço das eco regiões terrestres tem escassez de terras aptas para atender à atual meta de 17% de área protegida, que dirá a meta de 30%. Essas eco regiões com escassez de terras aptas para restauração abrangem todos os sete reinos biogeográficos, 12 biomas e 114 países. Cerca de 2 milhões de km2 (uma área aproximadamente equivalente a um quarto dos EUA ou da China) precisam de restauração, destacando que as políticas de conservação devem reduzir a degradação humana atual, onde a restauração será importante. Na prática, isso significa que todas as futuras metas globais de conservação precisam incluir restrições à conversão dos habitats remanescentes, além da expansão das áreas protegidas.

4.  Existem vários arranjos de governanças eficazes para a proteção e precisamos de todos eles.

Quando alguns ouvem falar do trabalho da TNC para proteger as terras e águas ou pensam em proteção no contexto de metas anteriores, eles podem supor que estamos falando apenas do estabelecimento de áreas protegidas formais, administradas pelo governo e na lista da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza). Na verdade, também se pode incluir áreas protegidas privadas e servidões ambientais, bem como florestas levemente exploradas de maneira sustentável ou áreas marinhas com pesca artesanal sustentável. As evidências científicas nos mostram que os povos indígenas e as comunidades locais geralmente são mais eficazes na gestão de conservação do que as agências de áreas protegidas financiadas pelo governo. Terras e águas de propriedade e gestão indígenas devem receber reconhecimento e apoio por seu papel na obtenção das metas. Além disso, deve ser necessário o consentimento livre, prévio e informado para todas as áreas incluídas no alcance das metas.

Uma Rã de olhos vermelhos observa por meio de buracos de uma folha na Costa Rica.
Rã de olhos vermelhos. Uma Rã de olhos vermelhos observa por meio de buracos de uma folha na Costa Rica. © Dinorah Graue Obscura/Concurso de FotosTNC 2019

5.  Áreas intactas oferecem benefícios desproporcionais.

São benefícios em termos de sequestro de carbono, resiliência e preservação da espécie. Muitas das chamadas últimas "áreas intactas" remanescentes no mundo estão em terras indígenas. Argumentamos que a manutenção da integridade dos decrescentes habitats intactos é uma prioridade urgente dos esforços atuais de conservação global e deve ser um componente central das estratégias ambientais globais e nacionais, juntamente com os esforços atuais destinados a impedir a perda e a restauração de habitats.

6. Deveríamos colocar mais do nosso dinheiro na gestão eficaz das áreas protegidas existentes.

Uma área protegida que perdeu a maioria de seus grandes mamíferos, pássaros e árvores por atividades ilegais não pode contribuir inteiramente para a redução das taxas de extinção. A humanidade está atrasada em termos de nossos investimentos em gestão de áreas protegidas, e os únicos lugares em que a expansão de áreas protegidas pode ser uma prioridade de curto prazo muito maior do que gestão estão em países muito aquém das metas atuais de áreas protegidas.

7. "O ganho líquido" de todos os tipos de habitat é importante, mesmo que conservemos 30% até 2030

Como não sabemos se 30% de cada habitat protegido é suficiente, também precisamos gerir o restante da terra (ou seja, os outros 70%), de maneira a aumentar a extensão e a condição de todos os habitats. Eficiências aprimoradas em agricultura sustentável, pesca e redução da pegada de nossas atividades industriais e de energia são essenciais para tornar isso possível.

8. Precisamos transformar a maneira como vemos a natureza.

A integração de uma visão de mundo que inclui nossa interdependência com a natureza na economia e sociedade como um todo é fundamental.

Por do Sol na Avenida dos Babobás, perto de Morondava, em Madagascar.
Baobás. Por do Sol na Avenida dos Babobás, perto de Morondava, em Madagascar. © Alexandra Pinilla/Concurso de Fotos TNC 2019

Resumindo: Estamos no meio de uma emergência planetária, com espécies extintas em 1.000 vezes a taxa "histórica". Muito na natureza já foi perdido ou degradado. Em resposta, o novo quadro global deve procurar interromper e reverter essa perda comprometendo as partes a ações que interrompam mais perdas e incentivem a restauração e a resiliência.

De todos os animais e plantas com quem compartilhamos o planeta, somente nós, humanos, temos o poder de escolher o caminho coletivo para o nosso futuro.

Isso significa que pelo menos 30% das águas terrestre e do interior e 30% do oceano devem ser conservados por meio de um sistema de áreas protegidas bem conectado de forma eficaz e equitativa, ecologicamente representativa e onde essas áreas são mais necessárias. A qualidade dos 70% restantes de terra e mar também precisa melhorar. De todos os animais e plantas com quem compartilhamos o planeta, somente nós, humanos, temos o poder de escolher o caminho coletivo para o nosso futuro.

  • Comunicado conjunto das ONGs sobre biodiversidade

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    Pilares de um acordo para a natureza e para as pessoas em 2020.

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