Patrick Assumpção, produtor rural de Pindamonhangaba-SP, investiu na produção em sistema agroflorestais, integrando árvores nativas da Mata Atlântica com espécies frutíferas.
Agroflorestas Patrick Assumpção, produtor rural de Pindamonhangaba-SP, investiu na produção em sistema agroflorestais, integrando árvores nativas da Mata Atlântica com espécies frutíferas. © Felipe Fittipaldi

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Florestas movem a vida de proprietários rurais na Serra da Mantiqueira

Restauração florestal transforma a realidade de degradação dos recursos naturais no coração da Mata Atlântica.

Rubens Carbone é funcionário público em São Paulo, mas não abre mão de visitar o seu sítio em Extrema-MG todos os fins de semana. Há 20 anos ele começou a restaurar por conta própria às margens do Rio Jaguari, inspirado pelo amor pela natureza que herdou de seu avô, ainda criança. Ao longo desse tempo Rubens conseguiu sentir e ver claramente os benefícios que a floresta em pé trouxe “Quando cheguei aqui, em 1984, a beira do rio era completamente desmatada e com gado pastando. Hoje vemos uma mata fechada perto do rio e a água correndo muito mais limpa”, diz. Além do trabalho individual, em 2007 a área de Rubens foi uma das primeiras beneficiadas pela Secretaria de Meio Ambiente de Extrema, por meio do projeto Conservador das Águas, apoiado pela The Nature Conservancy (TNC).

A iniciativa surgiu para transformar propriedades rurais em produtoras de serviços ambientais, restaurando especialmente áreas próximas de nascentes e margens de rios, além de topos de morros, para garantir uma boa quantidade e qualidade da água no Rio Jaguari, um dos responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo. “Começamos com um Fusca, uma mula e dois funcionários, plantando menos de 100 árvores por dia, e hoje temos uma média de plantio de 2 mil árvores por dia. A ideia agora é levar essa experiência para outros municípios da região”, afirma Paulo Henrique Pereira, Secretário de Meio Ambiente de Extrema e idealizador do projeto. Essa expansão está acontecendo por meio do Plano Conservador da Mantiqueira, que busca replicar os excelentes resultados de Extrema em 284 municípios da Serra da Mantiqueira, no coração da Mata Atlântica.

Já em Pindamonhangaba, cidade estrategicamente posicionada entre as metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro, no Vale do Paraíba, Patrick Assumpção transformou o modelo produtivo centenário da fazenda da família. A Fazenda Coruputuba foi uma referência na produção agrícola da região durante todo o século XX, se destacando principalmente pela produção de madeira e celulose para a serraria e fábrica de papel da família.

Em 1996, Patrick se tornou responsável pela administração da fazenda, em um momento de crise após o encerramento das atividades das indústrias de processamento da família. Foi quando, em 2007, ele começou um trabalho experimental plantando espécies nativas da Mata Atlântica que fornecem madeira com boa qualidade para serraria, como o guanandi, na Fazenda Nova Coruputuba, que ocupa parte do território que era da família. Logo depois, descobriu os sistemas agroflorestais e entrou em um caminho constante de diversificação da sua produção, incluindo o plantio de espécies frutíferas que possam também gerar retorno financeiro a curto prazo. “Existe um tempo de espera, em torno de 20 anos, entre plantar e ter uma floresta madura com madeira com cerne bom para serraria. Nesse meio tempo, você teria que arrumar outras formas de renda na terra. Foi quando encontramos o sistema agroflorestal, usando áreas já plantadas para inserir culturas anuais no meio, como milho, banana, mandioca e árvores frutíferas”, diz Patrick. As agroflorestas também ajudam a melhorar a qualidade geral do solo, desgastado pelo histórico de monocultura, e aumentam o sequestro de carbono, beneficiando o clima da região.

Keila Silva, agrônoma, deixou de trabalhar com integração lavoura-pecuária para se dedicar a restauração florestal com seu parceiro, Patrick Assumpção, produtor rural.
Juntos pela restauração Keila Silva, agrônoma, deixou de trabalhar com integração lavoura-pecuária para se dedicar a restauração florestal com seu parceiro, Patrick Assumpção, produtor rural. © Felipe Fittipaldi

Sua companheira, Keila Silva, agrônoma, também mudou de vida ao deixar de trabalhar com sistemas de integração entre lavoura e pecuária, para se apaixonar pela restauração em agroflorestas. Hoje os dois trabalham juntos no Instituto Coruputuba, que busca espalhar as boas experiências da Fazenda Nova Coruputuba para os agricultores da região, com o objetivo de criar uma rede de produtores especializados na produção de espécies nativas da Mata Atlântica. Para Keila, aprendemos a plantar e a comer errado em boa parte do Brasil, “historicamente, consumimos frutas nativas da Europa e de outros lugares, utilizando técnicas de plantio estrangeiras, e não conhecemos várias espécies da nossa própria região”, diz Keila. Juntos, Keila e Patrick sonham com a consolidação de um mercado consumidor que valorize as espécies nativas da Mata Atlântica, uma forma de aquecer a economia agrícola local e fortalecer a própria cultura da região.

Existe um tempo de 20 anos entre plantar e ter uma floresta para serraria. Nesse meio tempo, você teria que arrumar outras formas de renda na terra. Foi quando encontramos o sistema agroflorestal.

Produtor Rural de Pindamonhangaba-SP

Os produtores rurais são parceiros essenciais em qualquer inciativa de restauração florestal em todo o país. Prioritariamente, as áreas degradadas estão localizadas dentro de propriedades privadas que, para serem restauradas, precisam da aprovação e colaboração de seus proprietários. “Eu diria que esses atores são os mais importantes. Se a gente não consegue mobilizar produtores rurais, a gente não consegue obter êxito na agenda de restauração”, explica Rubens Benini, Gerente de Restauração Florestal da TNC Brasil. Para avançar na restauração em larga escala, além de demonstrar os benefícios ambientais das florestas, é necessário fortalecer também a oferta de boas oportunidades econômicas para os proprietários e produtores rurais, seja por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), como é o caso de Extrema-MG e outros municípios que remuneram proprietários de áreas restauradas por projetos das prefeituras, ou pelo estímulo de restauração com espécies que geram retorno econômico em agroflorestas, como no caso de Patrick.

Em Extrema, Pindamonhangaba e nos outros mais de 280 municípios onde o Plano Conservador da Mantiqueira está sendo implantado, as histórias de paixão pela restauração florestal se multiplicam. O plano pretende restaurar 1.2 milhão de hectares até 2030, com um potencial para sequestrar até 260 milhões de toneladas em 30 anos, um número essencial para contribuir com o compromisso do Brasil no Acordo de Paris. O trabalho faz parte dos esforços da TNC para restaurar 12 milhões de hectares de florestas e ajudar a reduzir o déficit da vegetação nativa do país, por meio da campanha Restaura Brasil.