As metas de desmatamento para 2020 podem nos dar lições positivas, mesmo estando abaixo do planejado

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"A meta de 2020 provavelmente não será alcançada, mas tudo bem. Estou aqui para dizer às companhias: não se desesperem."
Mark Tercek

Por Mark Tercek

Um outro ano se foi, e estamos mais próximos do prazo final da Declaração de Nova Iorque sobre Florestas. Em 2014, mais de 50 empresas, incluindo nomes como Unilever, Cargill, Nestlé e Walmart, assinaram a declaração, se comprometendo a eliminar o desmatamento em quatro principais commodities até 2020: carne, soja, óleo de palma, papel e celulose. Essa iniciativa é um trampolim para o objetivo ainda maior de eliminar o desmatamento em todas as cadeias produtivas até 2030.

A meta de 2020 provavelmente não será alcançada, mas tudo bem. Estou aqui para dizer às companhias: não se desesperem.

Eu compreendo a angústia que alguns líderes coorporativos podem estar sentindo. De seus pontos de vista, falta apenas um ano para falharem no cumprimento do prazo de 2020 – e da sociedade civil cobra-los por não alcançarem a meta.

Mas vejo as coisas um pouco diferente. Empresas têm muito porquê serem aplaudidas. Desde que elas tenham planos sólidos para progredir ainda mais em direção aos seus compromissos.

As metas de desmatamento para 2020 representam a primeira tentativa séria para implementar compromissos de desmatamento. Empresas se uniram para desenvolver planos de negócios em países-chave para suas ações produtivas, por meio de parcerias pré-competitivas sobre o desmatamento (geralmente pela primeira vez). Essas organizações ganharam um senso muito melhor de suas pegadas ecológicas, o que permite que elas possam priorizar estratégias e recursos. Por exemplo, muitas companhias decidiram focar em óleo de palma na Indonésia, soja no Brasil e cacau na Costa do Marfim. Nada disso teria acontecido sem a urgência criada pelos compromissos de 2020.

Enquanto isso, ONGs se mobilizaram em duas áreas principais: ferramentas e transparência.

Implementar compromissos massivos contra desmatamento requer tecnologias sofisticadas para rastreamento e monitoramento. Porém, até recentemente, essas ferramentas não existiam. Então o World Resources Institute (WRI), desenvolveu o Global Forest Watch, a primeira plataforma de monitoramento que rastreia a perda de florestas em escala global. Isso se desmembrou no Global Forest Watch Pro, que permite que empresas zerem o desmatamento em cadeias produtivas específicas de locais específicos. O Stockholm Environment Institute and Global Canopy Program desenvolveu o TRASE, uma ferramenta de monitoramento que ajuda companhias a enxergarem onde determinadas commodities estão indo, e quais desses locais estão conectados com desmatamento nas áreas de origem. Este é um primeiro passo essencial para compreender a pegada ecológica de uma empresa e desenvolver ações para melhorá-la.

Dentro de países produtivos, ONGs e empresas têm colaborado como nunca para produzir ferramentas inovadoras que ajudem a implementar os compromissos. A TNC trabalhou diretamente com o setor de soja no Brasil para produzir o Agroideal, por exemplo, que ajuda o mercado a identificar áreas degradadas com aptidão produtiva para a expansão da soja. Isso alivia a pressão para o desmatamento do Cerrado, a vasta e incrivelmente biodiversa savana do Brasil.

O segundo componente é a transparência. Quando as empresas firmaram estes compromissos sobre desmatamento, elas não tinham a clareza que precisavam para implementá-los. Por exemplo, que definições eles deveriam usar para termos como “florestas”, “desmatamento” e “conversão”? Quais as melhores opções de monitoramento? Quais as expectativas e padrões de transparência, verificação, gerenciamento de cadeia produtiva? Em resposta, organizações ambientais - como TNC, Rainforest Alliance e Greenpeace, entre outras – se reuniram para estabelecer a iniciativa Accountability Framework para preencher lacunas de informações e produzir guias para as empresas, dos quais muitos já foram testados anteriormente em empreendimentos ao redor do mundo.

Essas mudanças de operação nos negócios, novas tecnologias e trabalhos em coalizão talvez não tivessem acontecido sem os compromissos para 2020. Eles geraram urgência e desbloquearam financiamentos essenciais. Agora, depende das companhias desenvolver planos factíveis para seguir em diante até os compromissos para 2030. Isso é o que as ONGs estão buscando agora.

Então, como seria um plano factível? Usar o Accountaility Framework como referência; revisar planos corporativos com seu auxílio; aproveitar ferramentas como o Global Forest Watch e Agroideal; e ter a certeza de trabalhar com parceiros nas cadeias produtivas e governos. É preciso de todos para realizar esse importante trabalho.

Eu sou otimista sobre 2019, mas também sou realista. Eu conheço os desafios. Tanto ONGs quanto empresas precisam fazer muito mais na pecuária, que sozinha é responsável por metade do desmatamento globalmente. Temos que incluir atores de mercados emergentes, especialmente a China, nessa conversa. Temos que ser muito mais inovadores ao mobilizar capital para ajudar produtores rurais em sua transição para uma produção de desmatamento zero e conversão zero.

E como desmatamento e conversão de terras são responsáveis por 15% das emissões de carbono no mundo, nós temos que ser rápidos – antes que seja tarde demais para controlar as mudanças climáticas.

Porém os compromissos de desmatamento para 2020 – e os resultados que estamos vendo hoje – demonstram que estamos avançando. Conforme as agendas de mudanças climáticas e desmatamento convergem, eu espero ver ações ainda mais agressivas, da sociedade civil e de empresas. Nós estamos em um ótimo lugar para começar. Vamos ao trabalho.


Mark Tercek é CEO global da The Nature Conservancy.