Itensificar pecuária na Amazônia pode ajudar a conservar florestas

Estudos da The Nature Conservancy mostra que o adensamento moderado da atividade em trechos já desmatados gera aumento de renda e incentiva a manutenção da vegetação nativa


Belém | 21 de fevereiro de 2017

Investir em intensificação moderada da pecuária na Amazônia pode ser uma solução eficiente para reduzir o desmatamento provocado pela própria pecuária e ainda ampliar os benefícios socioeconômicos que essa atividade oferece. É o que aponta um estudo de especialistas brasileiros da The Nature Conservancy (TNC), a maior organização ambiental do mundo, e da Agrosuisse, publicado em fevereiro pela revista Sustainability, publicação internacional de divulgação de pesquisas sobre meio ambiente.

 

O estudo Custos, benefícios e desafios da intensificação sustentável da pecuária em uma importante fronteira agrícola da Amazônia brasileira baseou-se em resultados do projeto Do Campo à Mesa, desenvolvido no sudeste do Pará pela TNC, em conjunto com Marfrig, Walmart e Fundação Moore. Ele mostra que com investimentos em manejo do solo e bem-estar animal é possível melhorar a qualidade das pastagens e fazer o gado ganhar mais peso em menor tempo, o que aumenta os ganhos do produtor rural e, simultaneamente, reduz a necessidade de transformar novas áreas de floresta em pasto.

 

A pesquisa foi desenvolvida em São Félix do Xingu, município que abriga o maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 2,2 milhões de cabeças de gado e que possui cerca de 5 milhões de hectares em Terras Indígenas ou Unidades de Conservação e uso restrito, áreas estratégicas para a preservação da riqueza ambiental do bioma amazônico. Uma das fronteiras agrícolas mais ativas do país, São Félix do Xingu foi o município campeão do desmatamento na Amazônia entre 2001 e 2010, mas conseguiu diminuir em cerca de 60% seus índices anuais de perda de florestas nos últimos oito anos, uma redução superior à média observada no Pará (46%) ou na Amazônia como um todo (39%), no mesmo período.

“O conceito de intensificação sustentável usado no estudo levou em conta a adoção de boas práticas agrícolas, a restauração de passivos ambientais, a diminuição da demanda por terras em relação ao cenário da pecuária extensiva e a intensificação moderada – em média três, mas não mais de quatro unidades animais por hectare, cada unidade animal correspondendo a 450 kg de animal vivo”, explica Edenise Garcia, gerente adjunta de Ciências da TNC e uma das autoras do estudo. “Com uma intensificação moderada, evitam-se impactos negativos associados ao sobrepastoreio, ao uso excessivo de adubos e fertilizantes, diminuindo também as emissões de dióxido de carbono e gás metano na atmosfera”, acrescenta Edenise.

 

O estudo também apontou que o custo médio de transição para a pecuária sustentável é de US$ 1335 por hectare, o que equivale de 2,8 a 6 vezes o custo da pecuária extensiva. No entanto, indicadores técnicos e financeiros comprovam que a adoção desse modelo intensivo de pecuária é economicamente viável em propriedades com área de pasto superior a 400 hectares. Nessas propriedades médias e grandes, o investimento se paga em sete a 11 anos a partir do início da intensificação e passa a dar retorno superior àquele obtido pela pecuária tradicional, com a vantagem adicional de ocorrer em um cenário de adequação ambiental e sem os riscos associados ao desmatamento ilegal. “O desafio para a intensificação em escala é o elevado investimento inicial. Para resolver isso, é necessário que governos, empresas e ONGs trabalhem em políticas de acesso a linhas de crédito que estimulem atividades agrícolas de baixa emissão de carbono e cubram os custos do produtor com adequação ambiental”, analisa Francisco Fonseca, coordenador de produção sustentável da TNC e coautor do estudo.

 

Além dos benefícios econômicos, os resultados obtidos indicam que a intensificação pode gerar uma série de benefícios sociais, como a criação de novos empregos, a melhoria do perfil técnico dos trabalhadores e da gestão das fazendas. Há também ganhos em termos climáticos, mesmo com o aumento no número de animais por hectare. Entre os principais estão a restauração das áreas de preservação permanente (APP) e a conservação de áreas vulneráveis ao desmatamento em propriedades privadas, que contribuem, respectivamente, para o sequestro de carbono e a redução das emissões de gases do efeito estufa.

O estudo ainda faz uma ressalva: para as propriedades menores, que tendem a copiar as práticas extensivas das grandes propriedades e que representam a grande maioria dos imóveis rurais na Amazônia, uma outra abordagem deve ser considerada. O modelo incluiria melhorias genéticas no rebanho, assistência técnica adequada, incentivo ao acesso a novos mercados e mesmo investimento em outras atividades que não a pecuária, como a produção de frutos nativos da Amazônia, apoiadas por políticas públicas focadas nas necessidades dos pequenos produtores.

 

Modelo já funciona no Pará

O projeto Do Campo à Mesa, que permitiu à TNC chegar a essas conclusões, funciona há quatro anos em São Félix do Xingu, com o objetivo de criar um modelo de pecuária responsável na Amazônia, que inclua toda a cadeia de valor e gere benefícios ambientais para o planeta e ganhos socioeconômicos para as famílias da região. Além do trabalho em campo, que levou a aumentos nos níveis de produtividade, renda e emprego nas propriedades-piloto, a iniciativa também ampliou a capacidade das empresas participantes, Marfrig e Walmart, de monitorar a origem da carne comercializada, inclusive dos fornecedores indiretos, ou seja, dos produtores que vendem gado para os pecuaristas que fornecem diretamente para o frigorífico. Isso é importante porque o monitoramento dos fornecedores indiretos é um dos gargalos para a expansão dos compromissos de compra responsável por parte dos setores de carne e de varejo. Em 2016, como fruto desse trabalho, surgiu o selo Rebanho Xingu, que oferece ao consumidor final a oportunidade de comprar uma carne produzida em áreas que respeitam a legislação ambiental.


A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização não governamental que desenvolve projetos de conservação em mais de 30 países. No Brasil desde 1988, a TNC tem como missão proteger plantas, animais e ecossistemas naturais que representam a diversidade de vida na Terra. A organização atua nos principais biomas brasileiros Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. Para mais informações, acesse: tnc.org.br

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