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O bater do leque: do ícone pop à linha de frente da Justiça Climática

Pessoa segura leque nas cores do arco-íris em evento ao ar livre, com multidão ao fundo, simbolizando orgulho LGBTQIA+ e expressão cultural coletiva.
© David Zalubowski

O "clack" de um leque abrindo é um dos sons mais reconhecíveis e potentes da cultura LGBTQIAPN+. Mas o que começou como uma expressão de identidade e resistência agora esbarra em uma urgência global: o planeta está quente, e precisamos de muito mais do que vento no rosto para garantir nosso futuro.

Se você frequentou qualquer evento, festa ou marcha voltada para a comunidade LGBTQIAPN+ nos últimos anos, certamente ouviu o som de centenas de leques abrindo simultaneamente. A cena gerou até uma piada interna de que "os LGBTs vão salvar o mundo do aquecimento global batendo leque". O humor sempre foi uma das nossas melhores ferramentas de sobrevivência e conexão. Mas, por trás desse meme excelente, existe uma discussão urgente que não tem muita graça.

Para entender o peso desse símbolo, é preciso voltar no tempo. Historicamente, o uso do leque ganhou força na cena Ballroom estadunidense e nas boates underground das últimas décadas. Ele era um artifício estético, sim, mas também um alívio prático para o calor em porões abafados e galpões fechados, onde pessoas marginalizadas – principalmente pessoas trans, travestis, negras e latinas – podiam se reunir para existir em segurança, longe da violência das ruas. O leque sempre foi, na sua essência, uma forma de criar fôlego em um ambiente hostil.

 

O novo clima e a velha hostilidade

O cenário atual, no entanto, é outro. O leque saiu exclusivamente das pistas de dança e bate ponto nos pontos de ônibus, nos vagões de trem lotados, nas caminhadas sob o sol do meio-dia e dentro de casas sem ventilação adequada. Os recordes de temperatura extrema não são mais eventos isolados de um verão atípico, eles são o “novo normal" de um clima que entra em colapso.

A piada de que o leque vai salvar o mundo esbarra em uma realidade dura: a mudança climática não é democrática. Quando as ondas de calor atingem as cidades, o impacto não é sentido da mesma forma por todos. Populações minorizadas são empurradas para as margens socioeconômicas e ambientais, o que se traduz em moradias em áreas de risco, menor cobertura vegetal nos bairros (as famosas ilhas de calor), dificuldade de acesso à saúde de qualidade e empregos mais expostos às intempéries do clima.

Essa vulnerabilidade estrutural coloca pessoas LGBTQIAPN+ na linha de frente dos desastres ambientais. Dados do Instituto Williams, da Universidade da Califórnia (UCLA), revelam que essa população tem uma probabilidade desproporcionalmente maior de viver em áreas com infraestrutura precária e alta exposição a riscos climáticos em comparação a casais cis-heteronormativos. No Brasil, essa exclusão é palpável: durante as recentes enchentes no Rio Grande do Sul, relatórios apresentados no G20 Social evidenciaram que a população trans esteve entre as mais vulneráveis. Além de perderem suas casas, essas pessoas relataram enfrentar barreiras extras, como discriminação e dificuldade de acesso a direitos básicos, dentro de abrigos emergenciais.

Quando o clima entra em colapso, quem já luta para ter seus direitos básicos reconhecidos perde muito mais rápido a estabilidade, a casa e a segurança. E a linha que conecta o agravamento da crise climática com a população LGBTQIAPN+ atende pelo nome de Justiça Climática.

 

 

Conservação exige diversidade

Como, então, viramos esse jogo? A própria natureza nos dá a resposta: o equilíbrio ecológico e a resiliência só existem onde há pluralidade. Quando um sistema perde sua diversidade, ele se torna frágil e adoece.

Com a nossa sociedade e o desafio climático, a regra é exatamente a mesma. É por isso que, para a The Nature Conservancy (TNC) Brasil, promover a inclusão não é apenas um aceno a uma data comemorativa. A diversidade de origens, experiências e identidades é parte fundamental das nossas metas de conservação. Sabemos que não existe conservação real sem diversidade humana.

Proteger a natureza e garantir as condições de vida no planeta exige transformações estruturais profundas. E essas metas só são alcançadas de forma rápida, eficiente e justa se formos capazes de ouvir e integrar as vozes de quem conhece, na pele, as falhas do nosso sistema.

Reforçamos, então, ainda mais a importância do Dia do Orgulho, em 28 de junho; celebremos a resistência, a cultura e a alegria de existirmos. Continue fazendo barulho, ocupando espaços e abrindo seu leque. Mas tenha a certeza de que a luta pelos nossos direitos é a base essencial para construirmos um planeta onde todo mundo possa, literalmente, voltar a respirar com segurança.