Desmatamento? Os investidores estão tomando a iniciativa
Por Louise Heffernan, conselheira para finanças e investimentos da TNC, e Tim Steinweg, líder da área de natureza do PRI
O ano de 2025 provou uma coisa: os investidores não estão esperando que os governos resolvam o desmatamento.
Mesmo com o fato de a COP30 não ter entregado um mapa do caminho para o fim do desmatamento, os investidores agindo silenciosamente – preparando o terreno para um impulso ainda maior em 2026.
Contrariando a tendência
Em um ano difícil para as coalizões de investidores climáticos, marcado por disrupções, diluições e até dissoluções, o PRI Spring – uma iniciativa global de stewardship que aborda riscos sistêmicos do desmatamento– continuou a mostrar um bom progresso.
O Spring é uma frente de ação do Principles for Responsible Investment (PRI), uma rede global de investidores criada em 2006 com o apoio da ONU para acelerar a integração das lentes ambientais e sociais aos investimentos.
Em 2025, o Spring chegou a 240 integrantes, que administram mais de US$ 19 trilhões em ativos. Destes, 96 dialogam ativamente com as empresas em que investem.
São companhias abertas a dialogar com investidores bem informados sobre riscos materiais e sistêmicos, como o desmatamento e a perda da natureza. O tom das conversas é visto como positivo, e as empresas sinalizaram uma disposição geral para melhorar seu desempenho.
Prevemos que esses engajamentos se tornarão ainda mais sofisticados em 2026. Embora expectativas padronizadas para todas as empresas funcionem como um bom ponto de partida, os participantes do Spring também estão desenvolvendo abordagens personalizadas. Isso permite formular expectativas que reflitam modelos de negócios e complexidades do setor e da região em que elas operam.
Riscos que se acumulam
Esses diálogos são cada vez mais específicos e úteis para a tomada de decisão. Iniciativas colaborativas dão acesso a conhecimentos externos: das universidades, da sociedade civil e de outros grupos que podem influenciar a atuação ativa dos acionistas (active ownership).
Nos últimos dois anos, eles passaram a entender de forma mais profunda como a perda da natureza se traduz em riscos para negócios e portfólios.
O desmatamento não destrói apenas habitats. Ele interrompe o regime de chuvas, afeta a produtividade agrícola e compromete a segurança hídrica e energética. Pesquisa da revista científica Nature Communications estima que uma eventual mudança no regime de chuvas por causa do desmatamento na Amazônia pode custar bilhões aos negócios.
Outros estudos mostram o quanto as grandes cidades dependem de florestas intactas para o suprimento estável de água. As evidências de riscos compostos em termos físicos, regulatórios, legais e reputacionais continuam a crescer.
Das promessas à ação
Com a aproximação dos prazos prometidos em compromissos de "desmatamento zero", as expectativas agora são de entregas demonstráveis.
Para ajudar as instituições financeiras a navegar pelas diferentes metas setoriais, a The Nature Conservancy, o PRI e parceiros desenvolveram uma estrutura concisa e útil para a tomada de decisões nas cadeias de suprimento de carne bovina, soja e óleo de palma.
Chamado "Perguntas para a Gestão" (Questions for Management), o modelo se baseia em três fundamentos:
As metas são claras e abrangentes? isso significa prazos definidos, inclusão de diversas commodities e abrangência geográfica completa.
Os planos de implementação são confiáveis? Têm governança, recursos e engajamento de fornecedores que resistam a uma análise minuciosa?
A divulgação ajuda na tomada de decisão? Conta com transparência nos dados de rastreabilidade (incluindo dos fornecedores indiretos), nos planos de implementação e nos mecanismos para lidar com queixas?
Testado com mais de 30 instituições financeiras, esse framework destaca tanto os componentes de uma estratégia robusta quanto as lacunas comuns que podem enfraquecê-la. Ele já está orientando o diálogo entre investidores e empresas ao longo da cadeia intermediária da agricultura e de setores adjacentes.
Uma guinada pragmática no engajamento dos investidores
Essas ferramentas refletem uma mudança maior: transição em vez de exclusão. Excluir dos portfólios as geografias de alto risco não remove a exposição do sistema como um todo, simplesmente a redistribui. Em vez disso, investidores mais sofisticados estão colaborando com as empresas para fortalecer sistemas que viabilizem operações livres de desmatamento e conversão de terras em toda a organização, nos portfólios e nas cadeias de valor.
Três princípios emergentes estão moldando essa abordagem:
- Seja ativo na solução: apoie planos de transição confiáveis, não o veto a investimentos.
- Mire em empresas e não produtos: evite cadeias de suprimentos segmentadas.
- Foque em transparência e incentivos: garanta a rastreabilidade e incorpore a sustentabilidade nos termos comerciais.
Novas fronteiras de risco
As commodities agrícolas continuam responsáveis por quase 90% do desmatamento, levando a um aumento de emissões de gases de efeito estufa e volatilidade de oferta. Mas novas pressões estão surgindo
A demanda por minerais essenciais para a transição energética está redesenhando a geografia física e industrial dos setores que representam risco às florestas. O levantamento Critical Mineral Outlook 2025 da Agência Internacional de Energia (IEA) projeta forte crescimento da demanda futura por esses insumos, incluindo aqueles cujas reservas estão em paisagens florestais.
Mais da metade das reservas mundiais de níquel – essencial para baterias de veículos elétricos – está sob florestas tropicais na Indonésia. É uma região que não sofre pressão da produção agrícola, mas a demanda futura pelo minério pode representar novas ameaças. Os investidores precisarão estender rapidamente seus frameworks de risco de desmatamento para além dos sistemas alimentares.
O que esperar em 2026
Três fatores moldarão esta próxima fase:
Integração e consolidação de padrões. A adoção do padrão TNFD, que coloca em cifras o valor da natureza, está crescendo. Mais de 620 organizações, representando US$ 20 trilhões em ativos, estão começando a olhar para a divulgação consistente desses riscos. A atenção vai passar dos compromissos para métricas comparáveis, dados de qualidade e evidências da redução da exposição dos portfólios.
Incorporação da natureza nas decisões corporativas e de investimento. Para as empresas, isso significa levar em conta a natureza e uso da terra em áreas como compras, pesquisa e desenvolvimento, design de produtos e alocação de capital. Para os investidores, significa embutir os riscos associados à natureza em modelos de crédito e equity.
Um pipeline mais amplo e profundo de oportunidades de financiamento. Novas fontes de capital catalítico estão ajudando a viabilizar a agricultura sustentável e a restauração florestal em grandes países produtores, como o Brasil. Essas estruturas ajudam a restaurar pastagens degradadas e recompensam a proteção de ecossistemas nativos.
Do 'se' para o 'como'
Os investidores não estão mais perguntando se existem riscos materiais ligados ao desmatamento. Eles querem saber se ele está sendo gerenciado de forma eficaz – e se as empresas estão bem posicionadas para capturar mais receitas à medida que cresce a demanda global por commodities livres de desmatamento.
Publicado originalmente em Capital Reset
29 de janeiro de 2026
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