REDD+ jurisdicional: quando a floresta vira política pública
Por Marcio Sztutman, Diretor Executivo da TNC Brasil
Durante décadas, a conservação ambiental no Brasil foi tratada como custo ou entrave ao desenvolvimento. A floresta aparecia como passivo, raramente como oportunidade. Esse olhar começa a mudar com o avanço dos sistemas jurisdicionais de REDD+, que reposicionam a proteção florestal como instrumento de política pública e desenvolvimento territorial.
Ao operar em escala estadual, esses sistemas criam um ambiente regulatório único para monitorar, gerar e comercializar créditos de carbono associados à redução do desmatamento. Diferentemente de iniciativas pontuais, ampliam eficiência, reduzem riscos e permitem que os recursos sejam direcionados de forma planejada e contínua aos próprios territórios que mantêm a floresta em pé.
Os estados da Amazônia Legal têm muito a ganhar com esse modelo. Estimativas indicam que, juntos, podem movimentar até 21 bilhões de dólares em receitas com REDD+ jurisdicional até 2030. Acre e Mato Grosso já estruturaram seus sistemas, enquanto Pará, Amazonas, Tocantins, Maranhão e Piauí avançam em diferentes estágios de construção. Pela escala territorial e populacional envolvida, trata-se de um dos instrumentos mais promissores de financiamento climático em curso no país.
Um elemento central diferencia o REDD+ jurisdicional de experiências anteriores: o reconhecimento dos direitos territoriais. Como lida diretamente com terras, usos tradicionais e modos de vida, suas regras precisam ser pactuadas entre o poder público e as populações da floresta. Sem esse acordo, não há legitimidade social nem integridade ambiental possível.
Nesse contexto, a publicação da Resolução nº 19 do Ministério do Meio Ambiente representa um marco. Ao estabelecer diretrizes nacionais para programas jurisdicionais de REDD+, a norma traz segurança jurídica para estados e investidores e reforça princípios de transparência, participação social e respeito à autonomia de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.
A resolução reconhece a legitimidade dessas populações para propor e integrar os programas, assegura seus modos de vida e o uso tradicional do território, incluindo caça, pesca, agricultura de subsistência, práticas culturais e manejo comunitário autorizado. Também detalha exigências para a Consulta Livre, Prévia e Informada, prevendo construção coletiva dos processos, capacitação, acesso à informação e participação na governança.
Ao esclarecer regras que antes geravam ruído e desinformação, a regulamentação fortalece a integridade dos sistemas jurisdicionais e reduz riscos associados a interpretações equivocadas, criando um ambiente mais protegido para políticas públicas de longo prazo.
O impacto econômico e social do REDD+ jurisdicional está diretamente ligado ao destino das receitas. A maior parte dos recursos é obrigatoriamente reinvestida nos próprios territórios, financiando políticas públicas e iniciativas socioambientais em áreas como saúde, educação, regularização fundiária, assistência técnica rural, saneamento e desenvolvimento econômico local.
O Estado do Pará é um exemplo concreto desse processo. Desde 2022, vem construindo seu sistema jurisdicional em diálogo com populações indígenas, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares. As estimativas apontam para receitas de até 5 bilhões de dólares até 2030, com mais da metade destinada diretamente aos territórios, beneficiando quase 2 milhões de pessoas.
Quando o investimento é contínuo e enraizado no território, os efeitos vão além da renda imediata. Abre-se espaço para que novas atividades econômicas e serviços regionais se fortaleçam ao longo do tempo. Cada sistema estruturado inaugura um novo ciclo socioeconômico, ajudando a organizar territórios historicamente fragmentados.
Pode-se chamar esse movimento de bioeconomia, empregos verdes ou investimento sustentável. O nome importa menos do que a mudança de lógica: a floresta deixa de ser apenas um ativo ambiental e passa a ser um vetor de desenvolvimento capaz de influenciar decisões públicas e privadas.
Os créditos de carbono, nesse contexto, não são um fim em si mesmos, mas um mecanismo de transição que direciona recursos para iniciativas de conservação e restauração florestal dificilmente financiadas por outras vias. Em um país que concentra enorme riqueza ambiental e profundas desigualdades sociais, o REDD+ jurisdicional abre uma janela concreta para reconciliar proteção da floresta, políticas públicas e bem-estar humano.
Ainda estamos aprendendo a dimensionar plenamente o alcance dessa transformação. Mas já é possível afirmar que, quando a proteção ambiental se alia a governança, direitos e investimento territorial, ela deixa de ser promessa abstrata e começa a se materializar na vida das pessoas: um efeito profundo e ainda pouco visível do REDD+ jurisdicional no Brasil.
Publicado originalmente em Galileu
27 de fevereiro de 2026
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