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Formação que fortalece territórios: Projeto Redes impulsiona lideranças indígenas

CAFI Students at Amazon Indigenous Training Center (CAFI), on Brazilian Amazon, Manaus, Brazil. © Rafael Araujo

Iniciativa estratégica do movimento indígena para fortalecer a formação política e técnica de suas lideranças, o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI) foi criado em 2006 pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Desde sua origem, o CAFI contou com o apoio de parceiros institucionais, como a The Nature Conservancy (TNC) Brasil, que contribuíram para viabilizar e qualificar os processos formativos voltados à gestão territorial e ambiental, defesa de direitos e fortalecimento organizacional indígena. Desde então, o centro formou dezenas de lideranças indígenas, muitas das quais hoje ocupam posições-chave em organizações indígenas, espaços de governança territorial e instâncias de diálogo com o Estado.

A partir de 2022, o CAFI vem investindo em uma atualização curricular e na articulação institucional para alinhar a formação às demandas contemporâneas dos territórios indígenas. Essa retomada se consolida com o Projeto Redes Indígenas da Amazônia, desenvolvido pela Coiab, em parceria com a TNC Brasil e aporte financeiro do Fundo Amazônia. Concebido para promover estruturas, ferramentas e capacidades institucionais e técnicas da rede de organizações indígenas nos nove estados da Amazônia Legal, além da União das Mulheres Indígenas da Amazônia (UMIAB), o projeto visa fortalecer a participação qualificada de indígenas em políticas públicas, programas climáticos e mecanismos de financiamento.

O ciclo de formações do projeto começou em 2024, com momentos decisivos de alinhamento e consulta entre lideranças e organizações, estabelecendo bases de governança, cronograma e temas. Esse processo foi fundamental para garantir que as formações respondessem a desafios reais dos territórios, conectando gestão, monitoramento, comunicação e acesso a recursos. A meta do projeto é beneficiar cerca de 1,7 mil indígenas com formações realizadas via Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI).

Em 2025, o projeto avançou para uma etapa de maior profundidade, com o Curso de Formação Estratégica para Lideranças Indígenas reunindo dezenas de participantes em Manaus ao longo de três meses, com módulos que combinaram história do movimento indígena, gestão territorial e ambiental, mudanças climáticas, governança e instrumentos como REDD+ e mercado de carbono, fortalecendo a capacidade de incidência e diálogo em espaços decisórios. A formação teve ainda paridade de gênero e conexão com agendas nacionais, como o Acampamento Terra Livre, onde cursistas apresentaram pesquisas sobre língua materna, território, conservação, juventude, bem-viver e fortalecimento das mulheres — evidenciando que conservar a floresta também é sustentar culturas, direitos e modos de vida.

“O curso de formação tem o objetivo de trabalhar temáticas estratégicas para o movimento indígena, formando lideranças para atuarem de forma eficaz em suas organizações regionais, com capacidade de diálogo, de construção de narrativas e poder de articulação em defesa dos direitos dos povos indígenas, preparados para enfrentar os desafios da contemporaneidade. É como as lideranças costumam falar, antes nós tínhamos o arco e a flecha, hoje precisamos ter a caneta, as ideias e o conhecimento necessários, tanto para escrever quanto para falar em defesa do direito dos povos indígenas. Nossa expectativa é que as lideranças retornem para suas comunidades e apliquem junto às suas organizações o que aprenderam, sendo multiplicadores dos conhecimentos e vivência adquiridos”, explica a gerente do Cafi, Gracinha Manchineri.

"Lideranças não nascem prontas, elas precisam ser qualificadas e adquirir conhecimento para lutar em defesa dos nossos direitos. Por meio do projeto Redes, temos uma ferramenta fundamental para a formação de lideranças preparadas para ocupar espaços políticos, dentro e fora dos territórios, enfrentando os desafios da contemporaneidade, oferecendo soluções e promovendo mudanças. Isso fortalece cada vez mais as organizações e o movimento indígena", afirma Toya Manchineri, Coordenador-geral da Coiab.

No mesmo ano, o projeto ampliou a agenda de capacidades com formações específicas, como o curso de Especialistas em Economias Indígenas, estruturado em módulos de planejamento de negócios comunitários, diagnóstico e práticas de economias indígenas, riscos climáticos e acesso a mercados e certificações, valorizando modelos econômicos ancorados no território e na sociobiodiversidade. E, no campo institucional, ganhou força o curso de Gestão Institucional, voltado a gestores e coordenadores para aprimorar boas práticas de gestão financeira, legislação e estratégia, criando redes de cooperação entre organizações da Amazônia.

Já em 2026, o Redes entrou em nova fase, iniciando uma edição com metodologia aprimorada e componentes ainda mais conectados aos desafios contemporâneos, incluindo aulas diárias de inglês e espanhol, além de eixos como direito indígena, monitoramento e gestão do território e cuidado com a vida. Módulos como análise de conflitos e desenvolvimento humano e social respondem diretamente ao contexto de pressões e ameaças nos territórios e preparam lideranças para atuar também como mediadoras e articuladoras. Ao valorizar a força das narrativas indígenas, o módulo “Da oralidade à escrita” estimulou cursistas a registrarem suas trajetórias em memoriais — reforçando identidade, memória e estratégia como dimensões essenciais para ocupar espaços de decisão sem abrir mão da perspectiva indígena.

“Para a TNC, apoiar essas formações significa avançar uma visão de conservação que coloca pessoas e territórios no centro: quando lideranças e organizações indígenas ganham instrumentos de gestão, monitoramento, comunicação e acesso a financiamento, ganham também mais capacidade de proteger a floresta e orientar políticas e investimentos para resultados duradouros. É assim que o Projeto Redes transforma recursos em autonomia, governança e soluções lideradas por quem vive e cuida da Amazônia”, afirma Fernando Bittencourt, Coordenador do Projeto Redes Indígenas na TNC Brasil.