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Povo Xavante avança em sua governança rumo à criação de seu plano de vida

Reunião Xavante Guardião de extensos territórios do Cerrado brasileiro, o povo Xavante desempenha um papel estratégico na conservação de um dos biomas mais ameaçados do país. © TNC Brasil

Guardião de extensos territórios do Cerrado brasileiro, o povo Xavante desempenha um papel estratégico na conservação de um dos biomas mais ameaçados do país. Com territórios que juntos somam mais de um milhão de hectares — mantêm áreas de vegetação nativa, essenciais para a regulação do clima, a proteção da biodiversidade e a segurança hídrica. Proteger esses territórios é, também, fortalecer a autonomia, a governança e a capacidade de organização do próprio povo Xavante.

É com esse entendimento que a The Nature Conservancy (TNC) Brasil vem acompanhando, ao longo dos últimos anos, um processo gradual de fortalecimento organizacional junto às lideranças Xavante, com foco na reconstrução de uma representação coletiva que reúna as nove terras indígenas do povo no Mato Grosso. Um marco recente desse caminho foi a reunião Xavante realizada na semana anterior o Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, etapa fundamental no processo que resultará na reestruturação de uma organização indígena e na construção de um plano de vida Xavante.

Um processo enraizado no território e na história

A parceria entre a TNC e o povo Xavante existe desde 2003, na época a TNC apoiou a criação da primeira organização representativa do povo Xavante, a Coordenação Indígena Xavante (CIX). Mais recentemente, a partir de 2019, inicialmente motivada por ações emergenciais durante a pandemia de Covid-19, a TNC, em parceria com a FEPOIMT e com apoio do REM MT, apoiou iniciativas voltadas à segurança alimentar, como a distribuição de sementes, mudas e ferramentas para fortalecer as roças e a produção de alimentos, além do início de formações para agentes ambientais indígenas “Esse período abriu espaço para um diálogo mais profundo sobre os desafios enfrentados nos territórios e, sobretudo, sobre a necessidade do povo Xavante voltar a contar com uma  organização própria, forte e representativa”, afirma Diana Nascimento, especialista em Povos Indígenas da TNC Brasil.

Um dos principais desafios enfrentados pelo povo Xavante ao longo da história foi a demarcação de seus territórios em “ilhas”. Diferentemente de outros povos que possuem uma única Terra Indígena contínua, os Xavante tiveram seus territórios reconhecidos de forma fragmentada, em nove terras indígenas separadas entre si e espalhadas pelo território. Com o tempo, essa fragmentação contribuiu para distanciamentos, e dificuldades de organização coletiva, impactando a capacidade de atuação conjunta do povo Xavante na defesa de seus direitos e territórios.

Por isso, a atuação da TNC tem se concentrado na facilitação de espaços de escuta, diálogo e mediação, criando as condições necessárias para que as próprias lideranças Xavante construam consensos.

Um avanço recente importante desse processo foi a criação de uma comissão Xavante, com representantes das nove terras indígenas, organizada não por território, mas por coordenações temáticas — Gestão Territorial e Ambiental, Saúde, Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Economia, Empreendimento, Comunicação. “Essa escolha reflete uma busca por maior equidade e funcionalidade na representação, ao mesmo tempo em que reduz tensões culturais históricas. Trata-se de um processo cuidadoso e necessariamente gradual. Respeitar esse ritmo é essencial para que a nova organização nasça sólida, legítima e capaz de se manter no longo prazo. A experiência prévia mostrou que estruturas criadas sem esse lastro tendem a enfraquecer com o tempo”, afirma Diana.

Mulheres, jovens e anciãos no centro do debate

Um dos sinais mais claros de avanço na governança do povo Xavante é a ampliação da participação de mulheres, jovens e anciãos nos espaços de decisão coletiva. Se, historicamente, esses processos eram conduzidos por um grupo mais restrito de lideranças, encontros recentes mostram uma mudança significativa: mulheres Xavante passaram a ocupar os debates de forma ativa, reivindicando espaços próprios de organização, colocando suas demandas no centro das discussões e influenciando os rumos da construção da nova organização e do plano de vida. “Quando começamos a nos reunir só entre mulheres, era para fortalecer nosso trabalho. Hoje, essas reuniões são nossas, para discutir o que fazemos e o que queremos para o futuro. O grupo de mulheres é fundamental para ensinar às jovens, para que nossa cultura não fique de lado num momento em que tanta coisa está mudando. Nossa maior preocupação é com a educação e a saúde, e também em mostrar que as mulheres podem ser referência para o nosso povo. Antigamente, não existia mulher cacica. Hoje, estamos ocupando esses espaços”, afirma Carolina Rewaptu, liderança Xavante do grupo de coletoras de sementes na Terra Indígena Marãiwatséde (MT).

“O fortalecimento da unidade Xavante é estratégico não apenas do ponto de vista político-organizativo, mas também para a defesa dos territórios frente a ameaças externas, como o avanço do agronegócio, projetos de infraestrutura e pressões por arrendamentos. Atuar de forma coletiva amplia a capacidade de incidência e negociação do povo Xavante diante de empreendimentos que impactam mais de uma terra indígena simultaneamente”, de acordo com Karanhin Metuktire,  Segundo Secretário da FEPOIMT.

“Para a TNC, conservar esses territórios está diretamente ligado ao fortalecimento das condições de vida das comunidades. Segurança alimentar, alternativas econômicas sustentáveis e acesso a políticas públicas reduzem situações de vulnerabilidade e fortalecem a autonomia das famílias, criando condições reais para que a floresta e o cerrado permaneçam conservados a partir de decisões tomadas pelos próprios povos indígenas”, conclui Diana.

ATL 2026: um passo decisivo

A reunião Xavante realizada pré ATL 2026, em Brasília, representou um passo decisivo nesse caminho. O encontro integrou um ciclo de diálogos em que foram discutidos os papéis das coordenações, os princípios que devem orientar a nova organização e os primeiros elementos para construção de um estatuto próprio. E junto com isso, avança também o debate sobre a construção de um plano de vida Xavante, instrumento que articula visão de futuro, prioridades territoriais, proteção ambiental e bem-estar coletivo.

Os próximos passos incluem a consolidação dessas propostas, a realização de uma assembleia de fundação e a formalização da nova organização indígena. Mais do que um marco institucional, trata-se de um processo de fortalecimento da governança Xavante e de valorização de soluções lideradas por quem vive e protege o Cerrado.