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A floresta que volta a crescer e por que o Brasil não pode desperdiçar essa oportunidade

Por Rubens Benini, Diretor de Florestas da TNC Brasil

MATA ATLÂNTICA A restauração ecológica deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma realidade mensurável © Erik Lopes

A Mata Atlântica é, ao mesmo tempo, o bioma mais degradado e um dos mais estratégicos para o Brasil. Mais de 75% de sua cobertura original foi desmatada e é nesse território que vivem aproximadamente 72% dos brasileiros e onde se concentra cerca de 80% do Produto Interno Bruto nacional (PIB). É também ali que estão os mananciais que abastecem algumas das maiores regiões metropolitanas do país, áreas agrícolas altamente produtivas e polos industriais importantes para a economia. Por isso, o futuro da Mata Atlântica está diretamente ligado ao futuro econômico, hídrico e climático do Brasil.

Quando o bioma perde cobertura vegetal nativa, os efeitos se espalham por toda a sociedade, reduzindo a disponibilidade de água, em especial nos períodos mais críticos (épocas de estiagem), encarecendo a produção de alimentos e ampliando a vulnerabilidade à secas, enchentes e ondas de calor.

Mas a narrativa predominante de um bioma altamente degradado pode estar mudando. Os novos dados mostram que o bioma também pode se tornar um dos exemplos mais concretos de recuperação ecológica em larga escala no mundo. Um estudo publicado na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation, que reuniu 16 pesquisadores de 14 instituições no âmbito do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, revelou que 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa foram recuperados entre 2011 e 2021. Essa área é maior do que todo o estado de Sergipe e equivale a mais de dez vezes o território do município de São Paulo.

O dado mais impressionante é que aproximadamente 75% dessa recuperação ocorreu por regeneração natural. Em outras palavras, em grande parte dos casos, a própria vegetação nativa voltou a crescer sozinha após a redução de pressões, como o uso intensivo do solo. Isso revela uma oportunidade estratégica: restaurar pode ser mais viável e menos custoso do que tradicionalmente se imaginava.

Em muitas paisagens, a natureza já está pronta para fazer boa parte do trabalho, desde que receba tempo, proteção, condições adequadas e, claro, que a condução da regeneração natural seja tecnicamente possível. Os estados que mais concentraram esse processo foram Minas Gerais, responsável por 26,4% da área regenerada, Paraná, com 18,6%, Bahia, com 12,9%, e São Paulo, com 12,7%. Esses números evidenciam que a restauração não está restrita a áreas isoladas. Ela ocorre em um dos territórios mais povoados, urbanizados e economicamente dinâmicos do país, desafiando a falsa ideia de que floresta e produção rural não são agendas concorrentes. Ao contrário, são componentes complementares de um modelo de desenvolvimento capaz de aumentar a produtividade, reduzir riscos climáticos e gerar novas oportunidades de renda no campo.

Essa constatação tem enorme relevância estratégica. O Brasil assumiu, por meio do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Paralelamente, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica estabeleceu o objetivo de recuperar 15 milhões de hectares do bioma até 2050. A regeneração natural assistida pode ser um dos principais caminhos para tornar essas metas viáveis e economicamente sustentáveis.

Mas o estudo também faz um alerta importante. Dos 1,67 milhão de hectares recuperados, 568 mil hectares foram eliminados antes de atingir uma mínima maturidade. Isso significa que 34% das novas florestas desapareceram novamente, o equivalente a uma perda média de quase 50 mil hectares por ano. Ou seja, estamos permitindo que uma oportunidade ambiental e econômica se perca antes de atingir todo o seu potencial em benefícios. É como se uma área superior à da cidade de Belo Horizonte deixasse de cumprir, todos os anos, sua função de produzir água, proteger o solo, armazenar carbono e abrigar biodiversidade.

Quando uma floresta jovem é suprimida, perde-se muito mais do que cobertura vegetal. Perde-se a capacidade de infiltrar água no solo e perde-se o próprio solo (erosão), emite mais carbono e deixa-se de capturar carbono, perde-se mais biodiversidade. Ao contrário, quando a floresta é mantida, ela favorece a polinização, a produção de alimentos e a regulação do clima.

A degradação do solo reduz a produtividade agrícola e, consequentemente, impacta negativamente as safras agrícolas. A diminuição da cobertura vegetal compromete os mananciais que abastecem cidades e eleva os custos de tratamento e distribuição de água. Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis e intensos, a floresta funciona como infraestrutura natural indispensável para proteger a economia, a qualidade e segurança de vidas humanas.

A boa notícia é que já existem soluções concretas para transformar esse processo em uma estratégia permanente de desenvolvimento. Um bom exemplo é a iniciativa Restaura Brasil, da TNC, que visa promover uma mobilização política, empresarial e social para acelerar as ações de restauração e colaborar para que o país atinja sua meta global de clima, restaurando 12 milhões de hectares até 2030. Programas de pagamento por serviços ambientais, créditos de carbono, créditos de biodiversidade, linhas de crédito rural associadas à conservação e assistência técnica podem tornar a floresta em pé uma fonte de renda previsível para o produtor rural.

Essa lógica já vem mostrando resultados. O movimento coletivo Conservador da Mata Atlântica tornou-se referência ao remunerar proprietários pela proteção de nascentes e áreas estratégicas para a produção de água. Em projetos estruturados na Mata Atlântica, o mercado voluntário de carbono já direcionou mais de R$ 1,3 milhão em pagamentos diretos para cerca de 150 proprietários rurais, viabilizando a restauração de aproximadamente 3 mil hectares. Para ampliar esse tipo de iniciativa nos 17 estados do bioma, ferramentas como a Rede Observatório de PSA ajudam a conectar produtores, governos e investidores e a direcionar recursos para projetos com alto potencial de impacto.

Outro aspecto fundamental é o papel de territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Nessas áreas, a relação histórica entre pessoas e natureza tem contribuído para a conservação da biodiversidade e para a preservação de conhecimentos essenciais ao manejo sustentável da floresta.

A principal mensagem desse estudo é que a restauração ecológica deixou de ser uma promessa futura para se tornar uma realidade mensurável. A Mata Atlântica já está se regenerando em larga escala. O risco agora não é a falta de potencial, mas a ausência de estruturas e iniciativas para proteger o que já está se recuperando. Garantir que essas florestas tenham tempo para amadurecer é essencial para consolidar seus benefícios ecológicos, sociais e econômicos.

Se conseguirmos alinhar políticas públicas, instrumentos financeiros e segurança jurídica, o Brasil poderá transformar a recuperação da Mata Atlântica em uma referência internacional de como a natureza pode impulsionar desenvolvimento, reduzir desigualdades e fortalecer a resiliência de um país inteiro.

Publicado originalmente em Um Só Planeta
01 de junho de 2026
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