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Coalizão financeira para agricultura sem desmatamento atinge quase US$ 1 bilhão, mas apenas 2% chegam à Amazônia

IFACC O Brasil deixou de discutir se é possível financiar uma agricultura sem desmatamento e passou a operar esse modelo em escala relevante. © André Dib

O financiamento de uma agropecuária sem desmatamento no Brasil deixou de ser promessa e passou a operar em escala. Desde 2021. uma coalizão internacional de bancos, investidores e empresas do agronegócio desembolsou US$ 954 milhões em crédito voltado à produção sustentável, valor que se aproxima à meta de US$ 1 bilhão. 

Os recursos são mobilizados por meio do IFACC (Inovação Financeira para a Amazônia, Cerrado e Chaco), iniciativa que conecta capital e produtores rurais dispostos a expandir ou intensificar a produção sem conversão de vegetação nativa, e que acaba de divulgar seu relatório anual.

Na prática, o montante corresponde a 20 produtos financeiros, estruturados por parte das 26 instituições signatárias do IFACC. Desde 2021, esses recursos financiaram 668 mil hectares de produção de soja e pecuária livres de desmatamento, área equivalente a mais de quatro vezes o município de São Paulo. Os recursos também apoiaram 2.204 hectares de sistemas agroflorestais (modelos que combinam cultivo agrícola com árvores nativas), 739 hectares de restauração florestal e a proteção de 94.142 hectares de vegetação nativa além das exigências legais.  Os dados reforçam que a transição para uma agropecuária sem desmatamento já se consolida como uma agenda econômica, e não apenas ambiental. 

"O Brasil deixou de discutir se é possível financiar uma agricultura sem desmatamento e passou a operar esse modelo em escala relevante. Quase um bilhão de dólares em quatro anos, em um cenário de juros elevados, mostra que o mercado encontrou uma lógica econômica consistente para a transição", afirma Marcos Gambi, gerente de Finanças Agrícolas na TNC Brasil e integrante do secretariado do IFACC.

 

Cerrado concentra recursos e Amazônia segue com baixa participação

Apesar do avanço, o relatório revela um desequilíbrio regional expressivo: 97,8% foram direcionados ao Cerrado, principalmente para o financiamento à soja. A Amazônia recebeu apenas 2% do total, distribuídos entre pequenos projetos de agrofloresta e apoio a comunidades que vivem do manejo sustentável de produtos da floresta, como castanha, açaí e óleos vegetais.  O padrão reflete a lógica atual do mercado financeiro, que tende a priorizar regiões e cadeias produtivas com maior previsibilidade operacional e menor percepção de risco.

O dado evidencia uma limitação estrutural: os instrumentos financeiros disponíveis ainda estão ancorados em cadeias consolidadas, com garantias conhecidas e retornos previsíveis. Já a bioeconomia amazônica, baseadas no uso sustentável da biodiversidade sem desmatamento, opera com ciclos de produção mais longos, volumes individuais menores e perfis de risco que o mercado financeiro convencional ainda não incorporou plenamente.

"O modelo que funcionou no Cerrado não pode ser simplesmente copiado para a Amazônia. São cadeias, produtores e tempos diferentes. O desafio é desenvolver instrumentos financeiros que reconheçam essa complexidade, em vez de excluir quem não se encaixa no padrão", afirma Gambi, que antes de ingressar na TNC atuou como consultor do Banco Mundial em projetos agropecuários de desenvolvimento sustentável em diferentes regiões do Brasil.

 

Fundo inédito de capital catalítico busca destravar investimento privado

Para corrigir essa assimetria, o IFACC lançou, em novembro de 2025, o CCAT (sigla em inglês para Capital Catalítico para a Transição Agrícola), um fundo voltado a reduzir riscos e ampliar o alcance do financiamento verde no campo. Gerido pela Vox Capital, com a TNC como consultora de impacto socioambiental, o fundo recebeu um aporte inicial de US$ 50 milhões.

Diferentemente do crédito direto ao produtor, o CCAT atua assumindo as fatias de maior risco em operações estruturadas por bancos e securitizadoras, funcionando como um mecanismo de proteção para investidores privados.  A expectativa é que, ao reduzir o risco da operação, cada US$ 1 colocado pelo CCAT atraia outros US$ 4 em capital privado, ampliando o volume de recursos disponíveis para financiar a transição produtiva. A meta é alcançar US$ 200 milhões em aportes até 2028, o que pode destravar US$ 800 milhões adicionais em investimentos de mercado.

 Em paralelo, o segundo leilão do programa Eco Invest, do Tesouro Nacional, mobilizou cerca de R$ 16,5 bilhões em recursos de baixo custo para que bancos brasileiros financiem a recuperação de áreas degradadas. A combinação entre instrumentos públicos e privados, é apontada no relatório como central reduzir o custo do capital e dar escala ao financiamento sustentável.

"O CCAT atua como um redutor de risco, viabilizando operações que o mercado ainda não consegue bancar sozinho, seja pela incerteza do retorno ou pelo prazo mais longo que a transição exige. Ele complementa políticas públicas, como o Caminho Verde e o Eco Invest, fortalecendo a alavancagem entre capital público e privado", explica Gambi.

 

Meta de US$ 10 bilhões até 2030 depende de capital de risco

O relatório projeta que, para atingir a meta de US$ 10 bilhões em financiamentos até 2030, será necessário ao menos US$ 2 bilhões em capital catalítico, disposto a absorver riscos maiores para abrir caminho ao investimento privado convencional.

O documento também chama atenção para o cenário político. As eleições brasileiras de outubro de 2026 introduzem incertezas que podem afetar a confiança de investidores e a continuidade de políticas públicas fundamentais para a transição, como o Eco Invest, o Caminho Verde e os planos de combate ao desmatamento.

A avaliação é que soluções financeiras bem estruturadas, capazes de funcionar independentemente do ciclo eleitoral, são essenciais para garantir a continuidade e a escala dos avanços já alcançados.

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Relatório IFACC 2025

Acesse o relatório completo de atividades IFACC em 2025 e conheça exemplos de mecanismos financeiros inovadores.

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