O caminho para a segurança hídrica se constrói com planejamento integrado e soluções baseadas na natureza
Por Claudio Klemz, especialista em Políticas Públicas da equipe de Água da TNC Brasil
O debate sobre segurança hídrica no Brasil costuma oscilar entre dois polos: a abundância natural e a escassez crescente, ambos verdadeiros. De um lado, o país concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta. De outro, episódios de escassez hídrica, degradação de bacias e perda de qualidade da água têm se tornado mais frequentes. Esse aparente paradoxo se explica pela dimensão continental e pela diversidade ambiental do país. Mas o desafio central está em resolver os problemas que emergem deste cenário, o que exige coordenação entre setores econômicos, sociedade civil e políticas públicas, além de visão estratégica de longo prazo.
Historicamente, a gestão da água é tratada por meio de soluções de engenharia. Seja no abastecimento público, na indústria, na geração de energia ou na agricultura, barragens, estações de tratamento, canais de irrigação constituíram a base das estratégias de gestão hídrica. Esse modelo foi importante para expandir o acesso à água, diversificar a matriz energética e sustentar a produção agropecuária, mas não é suficiente frente aos desafios atuais. Em um contexto de mudanças climáticas, com eventos extremos mais frequentes e intensos, os limites operacionais e financeiros da infraestrutura convencional tornam-se cada vez mais evidentes. Por isso, cresce a necessidade de integrar ambientes naturais como parte da solução, por meio da chamada “infraestrutura verde” ou “soluções baseadas na natureza”.
Nos últimos anos, as soluções baseadas na natureza ganharam espaço como estratégias eficazes de adaptação climática. A restauração ecológica, a proteção de nascentes, as boas práticas de uso do solo e o manejo integrado do fogo passam a ter importância não apenas como iniciativas ambientais, mas como instrumentos de gestão hídrica e governança territorial. Quando aplicadas em escala de bacia hidrográfica, essas ações contribuem para: reduzir a erosão do solo e o acúmulo de sedimentos em rios e lagos, melhorar a infiltração de água no solo, aumentar o tempo de permanência da água nas bacias e diminuir custos operacionais de sistemas de abastecimento e de geração de energia.
Essa mudança de abordagem já é visível em um movimento global de aumento de investimentos. Entre 2013 e 2023, os aportes em soluções baseadas na natureza voltadas à segurança hídrica mais que dobraram, chegando a cerca de US$ 49 bilhões investidos. A China se destaca nesse movimento, impulsionada pela necessidade: restaurar ecossistemas tornou-se imprescindível para corrigir erros do passado e preparar o país para o futuro. Mesmo com os avanços, o volume de investimento global está longe do necessário para responder à escala dos desafios, especialmente em países em desenvolvimento, onde a pressão sobre os recursos hídricos tende a ser maior. O setor de água e saneamento, por exemplo, investe cerca de US$ 770 bilhões por ano, globalmente, segundo dados de 2018. Se apenas 1% desse valor fosse direcionado a soluções baseadas na natureza, o montante superaria todo o orçamento mundial de filantropia dedicado à natureza — um potencial transformador ainda pouco explorado.
Os benefícios das soluções baseadas na natureza são amplamente documentados: melhoram a qualidade da água, reduzem riscos de desastres, fortalecem a economia e contribuem para a resiliência climática. Diversos estudos já demonstram que investir na natureza, em conjunto com a infraestrutura convencional, faz sentido técnico e econômico. No entanto essas soluções ainda são adotadas de forma limitada e muitas vezes restrita a projetos pontuais, dependentes de financiamento específico e com dificuldades de continuidade no longo prazo.
Um dos principais entraves é a forma como o financiamento é estruturado: predominam recursos públicos sujeitos a ciclos políticos, com foco nas etapas iniciais de implementação dos projetos, enquanto o monitoramento e a manutenção ao longo do tempo recebem menos atenção. Isso gera um descompasso entre a natureza dessas soluções, que entregam resultados no longo prazo, e os mecanismos tradicionais de financiamento, que operam com horizontes mais curtos. Na prática, seguimos priorizando respostas imediatas, ainda que limitadas, sustentadas por estruturas tradicionais de investimento, enquanto soluções baseadas na natureza, mais estratégicas no longo prazo, ficam em segundo plano.
A governança fragmentada também contribui para o problema. A gestão da água envolve múltiplos setores, como saneamento, energia, agricultura, planejamento territorial e meio ambiente, que, embora sejam complementares, nem sempre atuam de forma coordenada. Ainda que experiências bem-sucedidas mostrem que a participação direta de comunidades locais fortalece resultados, essa integração ainda não é regra.
O Brasil possui instrumentos legais e institucionais sólidos para gestão da água, como a Política Nacional de Recursos Hídricos, os Comitês de Bacia, os planos de bacia, a outorga e a cobrança pelo uso da água. Esses arranjos criam condições para integrar diferentes agendas e incorporar soluções baseadas na natureza às estratégias de abastecimento e gestão territorial.
Além disso, políticas como a Política Nacional de Proteção da Vegetação Nativa (Código Florestal), a Política Nacional sobre Mudança do Clima e programas de pagamento por serviços ambientais ampliam as possibilidades de financiamento e de articulação entre conservação e produção.
Experiências como o Programa Produtor de Água, da Agência Nacional de Águas, demonstram que é possível direcionar recursos para a restauração de bacias e a proteção de mananciais, com resultados concretos para o abastecimento público. Mas precisam de muito mais investimento e prioridade.
Ainda assim, a existência desses instrumentos não garante implementação em escala. Faltam capacidade técnica, especialmente nos municípios, acesso a financiamento de longo prazo e alinhamento entre políticas setoriais. Em muitos casos, os modelos convencionais de infraestrutura ainda recebem mais inventivos, enquanto as soluções baseadas na natureza são tratadas como complementares, e não como parte estruturante da política hídrica.
O relatório O Poder da Política Pública, desenvolvido pela The Nature Conservancy (TNC), pelo Stockholm International Water Institute (SIWI) e pela consultoria IVL Swedish Environmental Research Institute, reúne evidências de 17 países para identificar as condições institucionais, regulatórias e financeiras que permitem escalar as soluções baseadas na natureza. Entre as entregas está um marco analítico para apoiar governos e gestores a identificar lacunas e alinhar políticas para desenvolver estratégias estruturantes de segurança hídrica.
A conclusão do estudo é clara: o problema não está na falta de instrumentos, mas na dificuldade de implementá-los de forma coordenada, contínua e financeiramente robusta. Garantir segurança hídrica não é apenas uma questão de volume armazenado ou de obras construídas, mas de como os territórios são geridos, integrando políticas e atores com visão de longo prazo. Em um cenário de crescente pressão climática e ambiental, a integração entre infraestrutura cinza e verde passar a ser essencial para o abastecimento seguro, resiliência climática, competitividade econômica e a qualidade de vida nas cidades.
Publicado originalmente em Galileu
07 de abril de 2026
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