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Como o crédito rural pode impulsionar a pecuária sustentável no Pará

Por Francelle Maciel, especialista em financiamento para agropecuária de baixo carbono da TNC Brasil

PECUÁRIA É fundamental inovar para além das políticas públicas tradicionais, desenvolvendo mecanismos financeiros e implementando-os de forma adaptada à realidade local. © Maíra Erlich

O crédito rural é hoje o principal instrumento de financiamento para o uso da terra no Brasil. No Pará, estado que abriga o segundo maior rebanho bovino do país, ele pode ser decisivo para impulsionar uma pecuária mais sustentável, inclusiva e alinhada às metas climáticas.

Com cerca de 26 milhões de cabeças de gado, a pecuária paraense é também a principal atividade associada ao desmatamento no bioma amazônico dentro do estado. Nesse contexto, o recém-criado Programa Pecuária Sustentável do Estado do Pará, somado à regulamentação e à implementação do Código Florestal, cria um ambiente regulatório mais favorável à agregação de valor ao setor produtivo associado a resultados ambientais positivos. Esse cenário abre oportunidades concretas para ampliar o acesso ao crédito rural e atrair capital privado comprometido com a transição produtiva sustentável.

Nos últimos anos, linhas de crédito voltadas à produção sustentável, como Pronaf Bioeconomia, Pronaf Floresta e RenovAgro/ABC+, têm avançado, mas ainda representam uma parcela reduzida do volume total desembolsado.

O desembolso voltado especificamente à pecuária ainda carece de critérios e mecanismos capazes de viabilizar, em escala, a transição sustentável. Na safra 2024/2025, essas linhas voltadas à produção sustentável somaram menos de 4% do total do crédito rural no Pará, evidenciando o descompasso entre a urgência da agenda climática e a escala dos investimentos disponíveis para práticas agropecuárias de baixo carbono.

Mais de 90% dos imóveis com atividade pecuária no estado pertencem a pequenos produtores. A maioria enfrenta barreiras significativas para acessar crédito rural, como ausência de garantias, irregularidades na documentação fundiária e ambiental, e falta de assistência técnica continuada, características lidas como alto risco sistêmico de inadimplência. Há três características fundamentais para viabilizar uma transição produtiva sustentável no Pará por meio de mecanismos financeiros inovadores para o setor agropecuário.

A primeira delas é o financiamento híbrido, que combina capital catalítico (público, filantrópico e/ou privado) para reduzir riscos e atrair investimentos para esses contextos tradicionalmente percebidos como de alto risco. Ao absorver parte dos desafios estruturais enfrentados pelos produtores, esse tipo de capital amplia a atratividade das operações para investidores comerciais. Iniciativas como o CRA Tabôa, parceria da Tabôa, Instituto Arapyaú, Instituto Humanize, Grupo Gaia, entre outros, e o programa Renova Pasto, apoiado por Rabobank, Agri3 e IDH, ilustram como o uso de capital catalítico pode viabilizar operações com forte impacto socioambiental. Esses modelos têm se mostrado particularmente relevantes na recuperação de pastagens degradadas e no fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade.

Ao absorver parte dos riscos associados a desafios estruturais, o capital catalítico reduz o risco de crédito percebido por investidores comerciais, seja por meio de estruturas subordinadas, fundos garantidores ou do financiamento de condições habilitantes, como assistência técnica e governança. Sua combinação com capital comercial amplia o volume de recursos mobilizados e permite escalar a transformação produtiva com alinhamento entre retornos financeiros e resultados socioambientais de longo prazo. A segunda característica é a integração da assistência técnica ao crédito.

A inclusão de serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) como elemento estruturante dos mecanismos financeiros é essencial para garantir a adoção de boas práticas, elevar a produtividade e reduzir riscos de execucão do mecanismo. Modelos como o próprio CRA Tabôa, Renova Pasto e o CNA Fiagro, que alia um fundo de investimento com assistência técnica e gerencial do Senar, mostram que a assistência técnica contínua, aliada à educação financeira e ao acompanhamento da produção, é um diferencial relevante para o sucesso dessas operações.

Por fim, destaca-se a necessidade de simplificação de processos. A redução da burocracia e a digitalização dos fluxos de crédito são fundamentais para ampliar o acesso de pequenos produtores. Iniciativas como o Conecta Produtor, do CNA Fiagro, e o uso de garantias solidárias no CRA Tabôa evidenciam que é possível estruturar processos mais ágeis, inclusivos e replicáveis, sem renunciar à segurança jurídica e financeira.

Políticas públicas articuladas a parcerias institucionais e iniciativas financeiras inovadoras são essenciais para democratizar o acesso ao crédito rural, promover uma transformação territorial e acelerar a adoção de práticas agropecuárias sustentáveis no Pará e em todo o país.

A combinação de uma visão sistêmica com uma abordagem integrada de paisagem permite que a transição produtiva vá além das cadeias individuais de suprimento, ampliando seu impacto e sua escala. Isso é especialmente relevante quando se considera que os produtores rurais, em especial os pequenos, dependem de uma renda diversificada, que envolve múltiplas cadeias produtivas consolidadas, da pecuária à sociobioeconomia (com produtos como cacau e banana), além de demandar tecnificação e acesso a insumos para a regularização ambiental de suas propriedades.

Após sediar a COP30, o Pará e a Amazônia se consolidam como territórios estratégicos para a construção de soluções climáticas de escala. Nesse contexto, abordagens de financiamento baseadas em paisagem ganham relevância por possibilitarem a integração de múltiplos usos da terra e o alinhamento entre objetivos econômicos, ambientais e sociais.

Para que essa transformação se concretize, é fundamental inovar para além das políticas públicas tradicionais, desenvolvendo mecanismos financeiros e implementando-os de forma adaptada à realidade local. Parcerias multissetoriais entre governos, setor privado, instituições financeiras e sociedade civil são o caminho para destravar o acesso ao capital, atrair investimentos e acelerar a transição para uma economia rural de baixo carbono no estado.

 

Publicado originalmente em Um Só Planeta
23  de março de 2026
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