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Foodscapes para as pessoas e para a natureza

Um mapeamento da diversidade da produção de alimentos em todo o mundo para caracterizar a transformação dos sistemas alimentares

Foodscapes para as pessoas e para a natureza
Upper Tana Watershed, Kenya Foodscapes for People and Nature © Nick Hall
O que é preciso para produzir alimentos? Pense nisso em camadas, a partir do zero. A camada inferior é a geografia física, talvez uma ampla planície em suave aclive em direção a uma bacia fluvial rasa. Sobre essa planície acumula-se solo rico em húmus, com alta concentração de carbono, cálcio e magnésio. Acrescente um clima úmido com chuvas torrenciais de junho a setembro e teremos as condições propícias à produção de trigo e arroz no norte da Índia.

Ou talvez não seja uma planície, mas uma série de cadeias de montanhas e vales esculpidos por rios, como no sul da Espanha, onde os alimentos são cultivados em bolsas de solo de drenagem rápida sob verões quentes e secos e invernos amenos e úmidos que sustentam uma verdadeira colcha de retalhos de pequenos bosques de oliveiras e amendoeiras com o gado pastando entre eles.

Quem sabe você comece no mar, ao longo da plataforma continental rasa do leste dos Estados Unidos, onde rochas e recifes propiciam a comercialização de crustáceos e os rios, nos seus estuários, trazem um fluxo constante de nutrientes, alimentos para a proliferação de colônias de ostras que, por sua vez, servem de viveiros para a pesca comercial e esportiva.

A necessidade de alimentos pode ser uma constante universal, mas a forma como os produzimos é diferente em todo o mundo. Especialmente quando consideramos práticas agrícolas específicas, forças de mercado, dificuldade de distribuição, políticas públicas e comunidades e culturas locais.

Explore as camadas de um Foodscape UI Element / Long Arrow Created with Sketch. UI Element / Return Created with Sketch. Voltar

Entender a diversidade que serve de base ao nosso sistema alimentar global é o primeiro passo para mudá-lo, e uma mudança transformadora se faz necessária. Existe uma crescente compreensão da necessidade dessa transformação, longe de um sistema que contrapõe as necessidades humanas à natureza, em prejuízo de ambas, e que apoie pessoas sadias e um planeta saudável. Mas a transformação global começa com a mudança local. Pensar na mudança de sistemas em termos do cenário alimentar pode ajudar a construir pontes entre os anseios globais e a implementação local.

O que são foodscapes?

Foodscapes, ou cenários alimentares, são os blocos de construção de sistemas alimentares globais. No novo relatório "Foodscapes: em busca da transição de sistemas alimentares", uma colaboração entre a The Nature Conservany (TNC), o International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA), e SYSTEMIQ, um cenário alimentar é definido como uma geografia de produção de alimentos distinta com combinações específicas de características biofísicas e atributos de gestão.

O que é um sistema alimentar?

Um sistema alimentar é a complexa rede de atividades, bem como as crenças e valores que moldam essas atividades, associadas à produção e ao consumo de alimentos. Isso inclui a produção, processamento, transporte, preparo, consumo e descarte de alimentos.

A distribuição de alimentos é um processo global complexo orientado pela demanda do mercado: a Argentina envia carne bovina para a China, que envia tilápia para os Estados Unidos, que manda trigo para a Indonésia, que manda óleo de coco de volta para os Estados Unidos e a China. Até mesmo a produção de alimentos que pode parecer inerentemente local é influenciada por sistemas biofísicos, econômicos, políticos e comunitários que atravessam fronteiras locais, regionais ou internacionais. Um foodscape é a interseção e a interação de todos esses sistemas em um espaço definido geograficamente.

Este relatório apresenta um novo mapa global de mais de 80 classes de foodscapes que foram identificados usando os melhores conjuntos de dados globais disponíveis de acionadores biofísicos de produção de alimentos (como tipo de solo e clima) e de gestão (incluindo tipo de cultura, manejo da água e informações agronômicas). Os desafios e pressões enfrentados pelos foodscapes são explorados, juntamente com seu potencial de transições rápidas e tangíveis no curto prazo.

Anna and Joseph Gatheru's Farm Joseph Gatheru was the first farmer in his area of Nyeri County, Kenya, to have a rainwater harvesting pan. © Roshni Lodhia

Foodscapes em foco

Bacia do alto Rio Tana e Baía de Chesapeake

A Bacia do Alto Rio Tana está localizada no planalto central do Quênia, ao norte e a montante da capital, Nairóbi. O foodscape do Alto Tana ocupa uma região montanhosa, de grandes altitudes, onde as estações se alternam entre períodos de chuvas intensas e longas temporadas de seca. Esses aspectos físicos, terreno, solo, clima, estabelecem as co...
A Bacia do Alto Rio Tana está localizada no planalto central do Quênia, ao norte e a montante da capital, Nairóbi. O foodscape do Alto Tana ocupa uma região montanhosa, de grandes altitudes, onde as estações se alternam entre períodos de chuvas intensas e longas temporadas de seca. Esses aspectos físicos, terreno, solo, clima, estabelecem as condições nas quais repousam os aspectos humanos da produção de alimentos. A produção dissemina-se por milhares de pequenas propriedades agrícolas chamadas shambas, a maioria com menos de dois hectares, muitas delas localizadas em vertentes íngremes. Apesar de sua pequena dimensão, essas shambas produzem tudo, desde cereais até abacaxis e café. Os produtos dessas propriedades são fundamentais para o consumo local em Nairóbi e constituem uma importante fonte de exportações internacionais, criando uma ligação econômica vital entre as shambas, a cidade de Nairóbi e a grande economia queniana.

Entretanto, existem foodscapes, tanto em ambientes marinhos quanto terrestres, ou ambos. Consideremos a região da Baía de Chesapeake, na costa leste dos Estados Unidos. A bacia hidrográfica que converge para Chesapeake cobre uma área de cerca de 7 milhões de hectares, 20% dos quais são utilizados para a agricultura, incluindo culturas rotativas, criação de aves, laticínios e carne bovina. Contudo, a própria baía também é um importante sítio de produção de alimentos, um lugar onde ostras são cultivadas e caranguejos azuis selvagens e robalos listrados são pescados.

Os ambientes marinhos e terrestres são interligados pelos rios que correm das áreas agrícolas de planalto para a baía e, sem as medidas adequadas para manejar o escoamento das fazendas, o excesso de nutrientes degrada a qualidade da água e prejudica as espécies marinhas, que são importantes para o ecossistema e para a economia alimentar local. Os sistemas alimentares na terra e no mar não podem ser administrados sem que se leve em conta os impactos de uns sobre os outros, de modo que eles possam ser vistos como um só foodscape, com desafios comuns e soluções conectadas.

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Foodscapes: rumo à transição do sistema alimentar

Novas formas de enxergar, gerenciar e implementar as transições necessárias para dar escala a transformação dos nossos sistemas alimentares.

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Alimentos e natureza: riscos e recompensas

A transformação dos sistemas alimentares é em geral vista como um desafio global, e com toda a razão: a produção de alimentos é um importante impulsor da mudança climática e da destruição da natureza, sendo responsável por quase um terço das emissões de gases do efeito estufa e 80% das alterações no uso da terra globalmente. Ao mesmo tempo, a mudança climática e a perda da biodiversidade tornarão muito mais difícil a produção de alimentos no futuro, ameaçando a subsistência dos produtores e, em última análise, criando ainda mais dificuldade para alimentar uma crescente população.

Porém, os sistemas alimentares também dispõem de grande potencial para uma mudança positiva. Uma transformação baseada na natureza no sistema alimentar global realmente ajudará a mitigar a mudança climática e a recuperar a biodiversidade, ao mesmo tempo em que mantém, ou até mesmo melhora, o sustento dos produtores.

a global map showing different categories of foodscapes across continents
Foodcapes ao redor do mundo Mapa exibindo classes de foodscapes em todo o mundo. Por causa do grande número de classes, não apresentamos legenda. Um mapa interativo on-line estará disponível após a publicação do relatório. © TNC/IIASA/Systemiq

Avaliações globais têm documentado as maneiras pelas quais o sistema alimentar global pode mudar para ficar mais alinhado às necessidades das pessoas e da natureza. O que ainda não está claro são as especificidades: o que fazer, onde e quando, e como conduzir transformações duráveis no solo.

O trabalho no âmbito de foodscapes permite o planejamento de transições na produção de alimentos que preencham a lacuna entre os desafios coletivos globais e as abordagens conduzidas localmente. Estruturalmente, classes de foodscapes oferecem uma unidade de análise que pode formar um mosaico dentro de uma área política, uma geografia definida ou bioma ou mesmo uma importante região de abastecimento agroecológico. Dessa forma, os foodscapes oferecem aos tomadores de decisão, economistas, analistas ou líderes comunitários uma ferramenta adicional para ajudar a mapear um relevante caminho para a transformação do sistema alimentar.

in the fields of Punjab, India.
PUNJAB E HARYANA, ÍNDIA O Semeador Feliz, uma solução inovadora de manejo de plantação, sem queimadas, com plantio direto, é promovida por instituições de pesquisa e governos para administrar resíduos de arroz. © TNC India

As soluções baseadas na natureza oferecem algumas das melhores intervenções para abordar as metas do clima, biodiversidade, alimentos e subsistência em conjunto. Neste relatório são exploradas três grandes categorias de soluções baseadas na natureza.

  • Agroecologia e práticas de agricultura regenerativa: são práticas agrícolas que restauram os foodscapes de formas que promovem a biodiversidade e aumentam sua capacidade de produzir alimentos saudáveis. Essas práticas são numerosas e se aplicam tanto aos sistemas de cultivo, quanto de pastagem.   
  • Aquicultura regenerativa, recursos pesqueiros gerenciados de maneira sustentável e produção de maricultura: tratam-se de métodos que recuperam a função ecológica e a integridade dos ecossistemas que foi degradada por práticas de produção históricas, poluição e superexposição dos recursos pesqueiros.
  • Proteção e restauração dos ecossistemas naturais: estas práticas incluem interrupção da conversão de florestas e pastagens para a agricultura e a restauração de florestas secundárias e pastos degradados, incorporado a recuperação das bordas dos campos e zonas costeiras, o que aumenta as áreas naturais e a agrobiodiversidade nos cenários agrícolas.
Califórnia, Estados Unidos Agricultural fields in California’s San Joaquin Valley can support crops like almonds and pistachios as seen here. © Stuart Palley

Foodscapes in Focus

Soluções Baseadas na Natureza em ação: políticas e prática

Na Bacia do Alto Tana, o manejo das propriedades agrícolas impacta d...
Na Bacia do Alto Tana, o manejo das propriedades agrícolas impacta diretamente a qualidade da água e a quantidade disponível a jusante. Nos últimos anos, o escoamento de sedimentos produzidos pelos fazendeiros reduziu a qualidade da água em Nairóbi e até afetou a disponibilidade de energia hidrelétrica uma vez que o represamento acumulou sedimentos. Em um terreno montanhoso de bacias hidrográficas como a do Alto Tana, as práticas agrícolas como curvas de nível ou fileiras de plantio de capim de forragem podem reduzir imensamente a drenagem. Menor escoamento também significa a permanência de solo mais fértil, o que propicia maior rendimento das safras como o café, e quando plantas de forragem nutritivas, como o capim-elefante estão disponíveis, as vacas produzem mais leite e, assim, os fazendeiros aumentam seus lucros, enquanto ajudam a melhorar a qualidade da água.

Assista ao vídeo: Aprendendo como melhorar a saúde do solo no Alto Tana

Em outros cenários alimentares, as melhores soluções talvez não se iniciem com ações nas propriedades agrícolas, mas com mudanças nas políticas que reformulem a economia da produção de alimentos. O foodscape do Vale de San Joaquin, na Califórnia central, é um dos foodscapes mais produtivos do mundo, com 2 milhões de hectares, que produzem um quarto das frutas, legumes e vinhas consumidas nos Estados Unidos. Mas essa imensa produtividade é alcançada à custa da vegetação original, uma mistura de alagados sazonais e cerrados áridos, que exige um nível de irrigação insustentável que está exaurindo os aquíferos locais.

Em resposta a esses desafios, o estado da Califórnia criou um novo órgão encarregado do desenvolvimento e implementação de estratégias locais para alcançar o uso mais sustentável da água. Uma vez que a agricultura é a base da economia da região, é importante estabelecer políticas que aumentem a sustentabilidade da água com pouco impacto na produção de alimentos. Com o estabelecimento de trocas de água locais e regionais, a água pode ser utilizada onde for mais necessária, reduzindo seu uso geral sem demandar qualquer alteração na produção de alimentos. Terras agrícolas em repouso degradadas ou marginais, o que as deixa fora do agronegócio, também reduzem a pressão sobre a água e se as áreas em repouso estiverem localizadas estrategicamente, elas podem atender às necessidades de habitat da maioria das espécies ameaçadas, com relativamente pouca terra. Algumas culturas, como as amêndoas, serão beneficiadas pela mudança, pois dependem dos polinizadores naturais, como as abelhas que requerem um habitat saudável e selvagem.

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Da ambição para à ação

A análise neste relatório toma como ponto de partida o mundo como ele é, os cenários apresentados demonstram até onde o mundo pode ir para alcançar as metas para clima, água, biodiversidade e produção de alimentos pela implementação de soluções baseadas na natureza nos foodscapes como existem hoje. Tais mudanças devem também ser complementadas por alterações nas dietas, esforços para reduzir a perda e o desperdício de alimentos, e outras medidas que transcendem o escopo deste relatório. Esta não é uma agenda modesta e o caminho a seguir não será simples.

O escopo desta agenda apenas ressalta a urgência de se agir agora. O principal objetivo deste trabalho sobre cenários alimentares é fornecer uma abordagem gerenciável para enfrentar esses desafios e oportunidades complexos e interdependentes. Para tanto, o relatório oferece recomendações específicas que líderes de todos os setores podem adotar para ajudar a acelerar esse trabalho.

O conceito de foodscapes nos ajuda a pensar nas complexidades e interdependências e a abraçá-las de uma nova maneira.

Representante do Enviado Especial para a Conferência de Cúpula da ONU

Os líderes governamentais devem analisar criteriosamente o emprego dos subsídios públicos no sistema alimentar. Muitos subsídios, como seguro de colheitas e auxílio em catástrofes, oferecem proteções importantes para os produtores vulneráveis às dramáticas oscilações do mercado, sem falar na rápida mudança climática. Mas o oposto também é verdadeiro: vários desses subsídios estão incentivando práticas que prejudicam o planeta, exacerbando muitos dos riscos para os agricultores. A realocação desses subsídios, afastando-os de práticas focadas exclusivamente na produção e nos resultados, para apoiar os produtores em uma mudança para soluções baseadas na natureza, que recuperem a integridade do solo e da água é uma das medidas mais poderosas que os formuladores de política podem adotar.

Os líderes do setor privado também devem apoiar ativamente uma transição baseada na natureza, não há mecanismo de escalonamento melhor e mais rápido do que os mercados. As empresas podem ajudar a abrir o caminho definindo padrões ambiciosos para uma produção de alimentos favorável à natureza e ajudar os produtores com quem trabalham a alcançar esses padrões de uma maneira que apoie sua subsistência.

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Tais mudanças não ocorrerão sem resistência, haverá perspectivas conflitantes quanto à prioridade, ritmo e escala da implementação, no que diz respeito a soluções alternativas e diferença de prioridades. Isso exige um papel relevante e voz da sociedade civil na participação colaborativa na transformação de sistemas alimentares, inclusive com a implementação e o escalonamento das soluções baseadas na natureza.

Talvez o mais importante seja que os líderes de todos os setores ouçam os produtores de alimentos e tenham um engajamento autêntico. A transformação dos sistemas alimentares resume-se, principalmente, em uma série de decisões adotadas por milhões de produtores em todo o mundo, em comunidades de diversidade incrível. Uma transformação justa e duradoura só pode ocorrer se todas essas comunidades puderem se ver como parte do processo e receber o apoio de que necessitam para participar, sendo os benefícios resultantes distribuídos igualitariamente.

O alimento é uma das nossas necessidades humanas mais básicas, mas ele não é apenas o que comemos, o alimento é o fundamento das culturas, comunidades, economias, ecologias e muito mais. É por isso que a transformação é tão difícil, mas também importante. Como observou recentemente Martin Frick, Representante do Enviado Especial para a Conferência de Cúpula da ONU sobre Sistemas Alimentares: “Só podemos solucionar o enigma de fazer os sistemas alimentares funcionar para as pessoas e para o planeta se estivermos olhando para o mundo real... O conceito de foodscapes nos ajuda a pensar nas complexidades e interdependências e a abraçá-las de uma nova maneira.”

Foodscapes: rumo à transição do sistema alimentar

Novas formas de enxergar, gerenciar e implementar as transições necessárias para dar escala a transformação dos nossos sistemas alimentares.

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