Boto do Araguaia (Inia araguaiaensis) nadando próximo a um pescador tradicional que usa uma vara de bambu fisgar peixes no Rio Tocantins, em Imperatriz-MA.
UMA CONVIVÊNCIA HARMONIOSA Boto do Araguaia (Inia araguaiaensis) nadando próximo a um pescador tradicional que usa uma vara de bambu fisgar peixes no Rio Tocantins, em Imperatriz-MA. © Bruno Parris /TNC Photo Contest 2019

Artigos e Estudos

Para a saúde do planeta

Medidas que induzem ao consumo não são eficazes na solução a longo prazo.

Por Rubens Benini, líder da estratégia de restauração florestal da TNC na América Latina.

Há 200 anos, o alemão Alexander von Humboldt desenvolveu a ideia de mudanças climáticas provocadas pelo homem e alertou que “humanos estavam interferindo no clima e que isso impactaria as gerações futuras”. Humboldt, ainda no século XVIII, percebia a frágil relação entre o homem e a natureza. Merecidamente é o ser humano que mais recebeu homenagens, com seu nome em inúmeros parques, plantas, etc. Ele foi respeitado, escutado e influenciou tomadores de decisão de sua época, incluindo Thomas Jefferson, James Madison, dentre tantos outros. Exatos cem anos de seu nascimento, pela primeira vez, surgiu o conceito de “Ecologia”, proposto por outro alemão, Ernst Haeckel.

Haeckel percebeu a necessidade de criar uma ciência específica que trataria da relação dos seres vivos e o ambiente onde vivem. A ecologia se tornou conhecida em meados do século XX e, nos últimos 50 anos, vem provando a interconexão entre os elementos dos ecossistemas.

A maneira como a sociedade enxerga o papel das ciências no mundo varia no decorrer dos séculos. Muitos desbravadores foram condenados à prisão ou mesmo à morte por trazerem conhecimentos que hoje nos são óbvios, como a forma de nosso planeta. Porém, novamente, assistimos ataques a cientistas e muitas vezes alertas importantes à humanidade são ignorados.

Nascer do sol no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro.
Um novo amanhecer. Nascer do sol no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. © Priamo Melo/Concurso de Fotos TNC 2019

Há exatamente um ano, fiz uma análise sobre como as mudanças no clima criavam um risco preocupante, ainda subestimado pela maioria dos governantes, mas que representa a maior ameaça para a sociedade em toda a história da civilização.
Os desafios estão interligados. O uso desenfreado dos recursos naturais e a degradação ambiental têm hoje efeito direto na saúde das pessoas, na geração e distribuição de renda, na desigualdade e nas migrações em massa, o que por sua vez ameaça a estabilidade socioeconômica e política.

É interessante notar que um ano depois entramos em uma emergência climática e agora em uma pandemia sem precedentes, de alcance ainda incerto, gerando não apenas a ameaça, mas a própria instabilidade socioeconômica prevista. Apesar de inúmeros alertas e avisos da ciência, mais uma vez, não nos preparamos como deveríamos. Como temos observado, práticas como a escassez de investimentos em saúde e ciência, levam a aumento de óbitos por doenças tropicais. Surge então uma doença viral que causa agora enorme impacto na sociedade: o COVID-19.

Independentemente do tempo que levaremos para encontrar a cura, cientistas fazem alertas da possibilidade de surgimento de novas doenças já há algum tempo. O próprio degelo das calotas polares nos traz riscos associados a isso. É momento de não apenas buscar a cura para doenças pontuais, mas resolver a causa.

Muitos cientistas relacionam o surgimento de doenças virais com a degradação ambiental, falta de práticas sanitárias e destruição de ecossistemas naturais, além de haver uma correlação entre mudanças de temperatura e proliferação de organismos patogênicos.

 

O uso desenfreado dos recursos naturais e a degradação ambiental têm hoje efeito direto na saúde das pessoas, na distribuição de renda, na desigualdade e nas migrações em massa, o que ameaça a estabilidade econômica e política.

Do ponto de vista econômico, os bens naturais e serviços ecossistêmicos são, com frequência, vistos meramente como externalidades e, devido à sua difícil valoração, não entram como deveriam na contabilização do “fluxo de caixa” da produção mundial, tampouco são inseridos como parâmetros de índices usados para medir economias globais e desenvolvimento humano.

No entanto, alguns economistas começam a observar essa grave deficiência no sistema econômico e apontam que estamos próximos a mudanças importantes na economia global, apesar de ainda não termos elementos claros para descrever essa nova abordagem que, de fato, proporcionará a guinada rumo a uma economia sustentável.

Já se sabe que medidas que induzem ao consumo não são eficazes na solução a longo prazo. Pesquisadores do tema relacionam a atual crise global como uma extensão da crise de 2008, e indicam que essa crise pode ser um dos primeiros sinais da não contabilização dos recursos e serviços ecossistêmicos nos modelos de produção. Isso não é um discurso ambientalista, mas sim de uma realidade econômica global.
Caso o modelo econômico presente não seja revisto, as externalidades negativas da degradação ambiental recairão sobre a sociedade, em especial sobre os mais vulneráveis, e comprometerão o desenvolvimento econômico e social. Uma dessas externalidades é o surgimento de novas epidemias, que, como no caso do COVID19, irão gerar perdas econômicas de trilhões de dólares. Isso reforça que as ciências econômicas e ecológicas são interdependentes e devem ser incorporadas em políticas públicas, não apenas em momentos de caos, mas, sobretudo, nas prevenções de catástrofes.

Em poucas semanas de isolamento e confinamento humano, o planeta mostra sinais de rápido poder regenerativo. Satélites revelam uma atmosfera limpa em cidades altamente poluídas. Rios e águas tornam a apresentar melhor qualidade. É um sinal de esperança apontando um novo caminho para resultados importantes na conservação do meio ambiente e saúde global.

 

Uma geleira nos Alpes Suiços com parte do gelo derretendo.
Mudanças climáticas. Uma geleira nos Alpes Suiços com parte do gelo derretendo. © Wai Yin Cheung/Concurso de Fotos TNC 2019

A história revela que boas oportunidades surgem nos momentos de crise e que o ser humano tem capacidade de adaptação à essas mudanças. Os avanços proporcionados pela era da tecnologia e da informação poderão contribuir para uma nova economia, baseada em mecanismos limpos de produção, substituição da matriz energética por energia limpa, comprometida com os estoques de matéria-prima, com a recuperação de áreas anteriormente degradadas e com a inserção das pessoas marginalizadas do processo de desenvolvimento socioeconômico.

A produção baseada em baixo carbono associada às soluções baseadas na natureza, como a conservação de ecossistemas nativos, a recomposição florestal, a bioeconomia e as ações efetivas para diminuir o desmatamento caminham na direção desse novo modelo de economia global. Atuar na valoração, conservação e recuperação de florestas, além de gerar emprego e renda, pode contribuir para a manutenção de serviços ecossistêmicos até então não incorporados nos índices de crescimento econômico. Essas atividades podem fomentar a produção sustentável de matéria-prima de base florestal na década da Restauração Florestal (ONU), pois a obtenção desses produtos por meio do desmatamento ilegal já mostra sinais de esgotamento, devendo ser ultrapassada num futuro próximo.

A produção baseada em baixo carbono associada às soluções baseadas na natureza caminham na direção desse novo modelo de economia global.

As temperaturas médias anuais do planeta continuarão a subir, o que pode favorecer o surgimento de novas doenças e o agravamento das atuais, mas a boa notícia é que a ciência nos mostra não apenas as causas, mas também as possíveis soluções e podemos trabalhar em ações para mitigar ou diminuir os impactos.

Devemos atuar nessas soluções para trazer segurança hídrica, maiores garantias de saúde e segurança alimentar, ao mesmo tempo que buscamos um novo modelo de desenvolvimento econômico. Já sabemos que conservação e produtividade devem caminhar juntas por meio de uma abordagem sistêmica, que integre os elos das cadeias produtivas. Neste cenário, escutando nossos cientistas, temos a oportunidade de transformar o Brasil em uma potência sustentável e exemplo para o mundo.