Copa do Mundo de 2026 pode ser a mais quente da história e expor atletas e torcedores a riscos crescentes de saúde, alertam cientistas
O calor extremo deverá ser um dos protagonistas indesejados da Copa do Mundo de 2026. Realizado em 16 cidades dos Estados Unidos, Canadá e México, o torneio acontecerá em um contexto de temperaturas recordes, agravado pelas mudanças climáticas e pela possível ocorrência de um evento de El Niño de grande intensidade.
O alerta vem de um grupo internacional de cientistas reunidos recentemente em um webinar promovido pela The Nature Conservancy (TNC). Segundo Katharine Hayhoe, cientista-chefe da organização e uma das principais comunicadoras globais sobre o clima, o planeta já aqueceu mais de 1,4°C em relação aos níveis pré-industriais. “A Copa do Mundo de 2026 pode ser uma das mais quentes já registradas. O aquecimento global está acelerando a frequência e a intensidade dos eventos de calor extremo em todo o mundo”, afirma a cientista.
A discussão no webinar também abordou os possíveis efeitos de um El Niño de grande intensidade. De acordo com Hayhoe, o fenômeno pode potencializar ainda mais as temperaturas globais ao se somar ao aquecimento causado pelas emissões de gases de efeito estufa. “Esse El Niño tem potencial para estar entre os mais fortes das últimas décadas. Em um planeta já aquecido pela atividade humana, seus impactos podem ser ainda mais significativos”, alerta.
Impactos que vão muito além do esporte
Os especialistas reunidos destacaram que diversas cidades-sede poderão enfrentar condições de calor capazes de afetar tanto o desempenho dos atletas quanto a saúde dos torcedores nas arquibancadas e eventos nas ruas. O problema, no entanto, afeta a rotina de toda a população. “Quando falamos de calor extremo, estamos falando de um dos riscos climáticos mais relevantes para a saúde humana. Idosos, crianças, trabalhadores expostos ao ar livre e pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias estão entre os mais vulneráveis”, explica Jennifer Vanos, professora da Arizona State University e pesquisadora dos impactos do calor.
A desigualdade é um fator crítico nessa equação. Além dos impactos imediatos sobre a saúde, os pesquisadores chamaram atenção para as desigualdades associadas ao calor extremo. Estudos apresentados pelo cientista climático da TNC, Luke Parsons, mostram que as populações mais vulneráveis costumam viver justamente nas áreas urbanas mais quentes, com menos cobertura vegetal, menor acesso a ar-condicionado e maior exposição aos efeitos das ondas de calor. Segundo ele, essa diferença tende a aumentar à medida que as temperaturas globais continuam subindo.
Áreas verdes como parte da solução
Para proteger as pessoas, o planejamento das cidades precisa mudar. Entre as soluções discutidas, ganhou destaque o papel das áreas verdes urbanas. Rob McDonald, cientista líder da TNC para Europa e Estados Unidos e especialista em Soluções Baseadas na Natureza, apresentou resultados de um estudo publicado recentemente na revista Nature Communications. A pesquisa analisou cerca de 9 mil cidades em todo o mundo e concluiu que as árvores já reduzem aproximadamente pela metade o efeito das ilhas de calor urbanas.
“Sem as árvores, as cidades seriam cerca de duas vezes mais quentes do que são hoje”, afirma. O pesquisador ressalta, porém, que a ampliação da cobertura vegetal não substitui a necessidade de reduzir emissões. “As árvores são parte da solução, mas não conseguem compensar sozinhas o aquecimento projetado para este século.”
Os especialistas também alertaram para riscos adicionais relacionados à fumaça de incêndios florestais, cuja ocorrência tem se tornado mais frequente em diversas regiões da América do Norte. A combinação entre calor extremo e má qualidade do ar pode ampliar os impactos sobre a saúde, especialmente entre grupos mais vulneráveis.