Mulheres Xikrin colhendo mamão e banana próximo a aldeia Pot-Kro, na Terra Indígena Trincheira-Bacajá, no Pará.
Mulheres Xikrin Mulheres Xikrin colhendo mamão e banana próximo a aldeia Pot-Kro, na Terra Indígena Trincheira-Bacajá, no Pará. © Kevin Arnold

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Menire: mulheres fortes, terra saudável

As mulheres indígenas tem um papel essencial para a manutenção dos modos tradicionais de uso dos recursos naturais em suas comunidades.

Por Luciana Lima, Eduardo Barnes e Allison Martin 

“Menire!” A voz das centenas de Mulheres Xikrin ecoa no território Indígena às margens do rio Bacajá. É o chamado para a roda de conversa na casa central ngàb, que acontece diversas vezes ao ano com esse grupo de mulheres. Fortes vozes agudas se aproximam para discutir seus papeis, atividades do cotidiano e conversas rotineiras. Além das mulheres, estão presentes crianças, cachorros e galinhas.

O povo Xikrin do Bacajá, do grupo Mebengokré e tronco linguístico Jê, habita a Terra Indígena Trincheira Bacajá, um território de 1,65 milhões de hectares no sul do Pará dividido em 15 aldeias e com uma população de 1067 pessoas, das quais 245 são mulheres com mais de 15 anos.

Além de todas as atribuições da rotina da mulher indígena, sempre vista dentro e fora da aldeia como a responsável por papéis secundários, elas foram em busca de conhecimento no mundo dos projetos fora do seu cotidiano, e reconhecimento dos seus papéis. O objetivo era se organizar para adquirir outros conhecimentos além dos já adquiridos. As mulheres Xikrin (menire) buscaram parceiros que entendessem essa importância da valorização e conhecimento, além de proporcionar a visibilidade dentro de sua comunidade e no mundo dos kuben (brancos).

Nós, mulheres Xikrin, somos muito importantes e temos que ser valorizadas dentro e fora da aldeia. Isso não é uma disputa, é só um direito nosso.

Gráfico descrevendo funções exercidas pelas mulheres do povo indígena Xikrin.
Atividades das mulheres xikrin Gráfico descrevendo funções exercidas pelas mulheres do povo indígena Xikrin. © Caio Esgario

Essa jornada de aprendizado dass mulheres começou há 5 anos, com uma iniciativa junto a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), no contexto do projeto Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (GATI). Depois vieram projetos em parceria com a The Nature Conservancy (TNC), Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS Xingu) e também com ribeirinhos e extrativistas da comunidade Rio Novo. Um dos destaques dos projetos que perduram, e continuam sendo executados, é o fortalecimento da cadeia produtiva do óleo de babaçu: um projeto piloto que está em fase de novas implementações no território, em virtude do grande número de aldeias, com a criação de uma nova nhô rõny kangõ nhõ kikre (casa do babaçu), uma mini usina de extração de óleo de babaçu. O projeto recentemente foi premiado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimantação, a FAO, que buscava reconhecer atividades de empoderamento e autonomia das mulheres em atividades rurais e para promover uma alimentação tradicional e saudável.

Infográfico com o processo de produção do óleo de babaçu produzido pelas mulheres do povo Xikrin, na terra indígena Trincheira-Bacajá.
Óleo de Babaçu Menire Infográfico com o processo de produção do óleo de babaçu produzido pelas mulheres do povo Xikrin, na terra indígena Trincheira-Bacajá. © Caio Esgario

As mulheres indígenas são protagonistas de um compromisso com as gerações futuras. Isso ficou explicitamente claro na elaboração da construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) do Povo Xikrin, que vem sendo implementado pela comunidade em parceria com a TNC. Mães, avós, bisavós, mulheres em geral, apresentam uma preocupação maior com os recursos da floresta, o qual garantem sua segurança alimentar e de toda a família. No PGTA, as menire destacaram o fortalecimento de produtos não florestais, como a Piy (castanha do Pará), que tem a participação de toda a família desde a coleta, até a lavagem da castanha, o carregamento e a entrega no paiol. As mulheres tem um papel importantíssimo na manutenção dos modos tradicionais de uso dos recursos naturais a partir de suas vivências e saberes. Nas comunidades, elas são vistas como tendo mãos que curam, nutrem e cuidam do meio ambiente.

Fui escolhida pelas mulheres do Povo Xikrin para estar à frente dessa gestão por sempre lutar não apenas por mim, mas por todas as menire. Esses ensinamentos vieram do meu avô e da minha mãe, e quero seguir com esse aprendizado.

Liderança Xikrin da Aldeia Pot-Krô

A autonomia e identidade das liderança femininas são apoiadas pelo trabalho da TNC, tanto entre os Xikrin quanto com outros povos, além de associações e instituições indígenas no Brasil. E esse apoio já tem mostrado resultados concretos. Hoje, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), por exemplo, são representadas por fortes lideranças mulheres.

A TNC entende que a liderança da mulher indígena é uma temática importante na parceria com povos indígenas e comunidades tradicionais no Brasil e no mundo. Elas são lideranças essenciais para avançar na autonomia dos povos indígenas na gestão de seus territórios, e nas iniciativas que estimulam o desenvolvimento sustentável das comunidades, preservando a natureza, mitigando as mudanças climáticas e fortalecendo culturas e o bem estar das presentes e futuras gerações.

Luciana Lima é Especialista em Conservação da TNC Brasil.

Eduardo Barnes é Especialista em Políticas Públicas para Povos Indígenas da TNC Brasil.

Allison Martin é Analista de Estratégias da TNC Global.