Solos vivos que alimentam o mundo
Produzir alimentos regenerando as paisagens estratégicas da América Latina.
El Hatico, ponto central do conhecimento
A Reserva Natural El Hatico é uma das principais fazendas regenerativas de referência na região, com resultados quantificáveis decorrentes dessas práticas. Serve como um ponto central de intercâmbios e de aprendizagem. As experiências do El Hatico estão documentadas no curso virtual gratuito da TNC e da FOLU como parte do projeto Paisagens Futuras. Faça parte clicando aqui
A família Molina entende o valor de ouvir e aprender com a natureza: seus ciclos, seus ritmos, seu poder de regeneração e de manter o equilíbrio. Hoje, El Hatico não é só uma fazenda de criação de gado e de produção de cana-de-açúcar regenerativa, mas também uma reserva natural que preserva uma das últimas relíquias da floresta seca tropical do Vale do Cauca. Localizada no sudoeste da Colômbia, uma área altamente desmatada, e uma das principais regiões de produção de cana-de-açúcar do país.
A conexão desta família com a natureza é um legado de nove gerações que os levou a se perguntar como fazer as coisas de forma diferente no início dos anos 90.
Como produzir alimentos saudáveis e, ao mesmo tempo, conservar os aquíferos e voltar a ver crescer a floresta que antes prosperava nessas terras de criação de gado e de produção de cana-de-açúcar? É possível dar vida novamente à terra para criar paisagens do futuro?
A resposta é, sim, é possível, e também se pode reduzir os custos, melhorar as condições laborais dos trabalhadores, assim como a resiliência e a adaptação da fazenda às mudanças climáticas e trazer de volta a biodiversidade.
Mudamos de um modelo de pecuária extensiva a um sistema silvopastoril intensivo que permite uma interação interessante entre árvores, arbustos e pastagens, gerando um sistema sustentável que tem autonomia em relação à fertilização e requer menos água
Resultado: vacas felizes e saudáveis que descansam sob o frescor das copas das árvores e uma atividade econômica mais eficiente. Os números falam por si. Embora hoje destinem 130 hectares à criação de gado, um terço da área utilizada em 1950, a Reserva Natural El Hatico abriga 1,6 vezes mais gado, produz 62 vezes mais leite por hectare e emprega 3,8 vezes mais pessoas.
Produzir alimentos e proteger a natureza
Nas paisagens da América Latina que alimentam o mundo, os produtores iniciaram a transição para uma nova forma de produção de alimentos. Uma em que a regeneração da natureza, a proteção dos sistemas hídricos, o bem-estar das comunidades e a forma como nos relacionamos com o que comemos estão no centro dos sistemas produtivos. A família Molina é um dos muitos casos, e há cada vez mais deles em toda a região.
No caso de José Namtz, no Gran Chaco argentino, ele eliminou o uso de discos de arado que revolvem o solo, substituindo-os pelo plantio direto, pela rotação de culturas entre as épocas de plantio e pelo uso de plantas de cobertura para evitar que o solo fique exposto entre as colheitas. Solos saudáveis proporcionam sustentabilidade econômica de longo prazo ao seu negócio. A implementação de alternativas para frear o desmatamento e os efeitos da expansão da fronteira agrícola lhe hão permitido melhor adaptação aos fenômenos climáticos, cada vez mais extremos na segunda maior floresta da América do Sul.
José é um dos produtores com os quais a TNC e a Nestlé Purina trabalham para fortalecer os sistemas produtivos do norte argentino, combinando conhecimento técnico, decisões de manejo e trabalho contínuo em 16.472 hectares nas províncias de Chaco e Santiago del Estero, das quais 62% já implementam práticas regenerativas. Saiba mais aqui.
Um campo sem árvores é um deserto. A floresta me protege dos ventos e da erosão, impede o rápido escoamento da água e nos livra de inundações
O Gran Chaco:
Leia a história completae descubra como a natureza pode se tornar uma grande aliada do desenvolvimento sustentável e do bem-estar das comunidades locais.
Paisagens Futuras
Por meio da adaptação baseada em ecossistemas (AbE), o projeto Paisagens Futuras tem como objetivo transformar os sistemas agrícolas em paisagens regenerativas. Para apoiar e dar escala a esses protocolos, a TNC e parceiros criaram o Marco Conceptual de Ganadería y Agricultura Regenerativa. Conheça mais sobre o projeto Paisagens Futuras aqui.
*Este projeto conta com o apoio da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) do governo alemão. No âmbito do Governo Federal, a IKI está vinculada ao Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN). Alguns projetos individuais selecionados também estão sob a responsabilidade do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha (AA).www.international-climate-initiative.com
Regenerar, um esforço coletivo
A regeneração requer uma grande diversidade de atores. A TNC, por meio de sua estratégia de Pecuária e Agricultura Regenerativa, trabalha com produtores locais, investidores, governos e consumidores com o objetivo de alcançar sua meta de 2030 de transformar a produção de alimentos e melhorar a gestão da terra em 32 milhões de hectares na América Latina, em paisagens estratégicas como o Gran Chaco, a Orinoquia, a Selva Maia, a Amazônia, o Cerrado, a Patagônia, a Mata Atlântica e o Magdalena.
Para alcançar esse objetivo, a estratégia R2A aposta no fortalecimento e na ampliação, de forma sistêmica, ágil e exponencial, das experiências de pecuária e agricultura regenerativas já existentes na região. Busca consolidar soluções que permitam transformar os sistemas produtivos e frear os impactos negativos da agricultura convencional sobre os ecossistemas e as comunidades.
A América Latina está em um momento decisivo. Como somos o maior exportador de alimentos do mundo, a forma como produzimos aqui determinará não só o desenvolvimento regional, mas também a segurança alimentar global, a estabilidade climática e a saúde do planeta.
América Latina, el mayor exportador de alimentos
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48%
do território é dedicado à produção de alimentos.
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70%
da perda de habitat é causada pela produção de alimentos.
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50%
dos gases poluentes são causados por práticas de produção.
Fonte: Land Cover of the European Space Agency - ESA Climate Change Initiative – CCI | www.esa-landcover-cci.or
A tecnologia regenerativa transcende fronteiras
Restaurar ecossistemas degradados e fortalecer laços socioambientais e econômicos transcende barreiras geográficas e disciplinares.
No Cerrado brasileiro, a John Deere, a Fundação Walmart, a Fundação Zoetis, a Corteva e a AGCO e a TNC demonstram que quando produtores têm acesso à assistência técnica qualificada para recuperar pastos degradados e viabilizar a adaptação ambiental de suas propriedades, os resultados se refletem em ganhos concretos de produtividade, uma maior resiliência da propriedade, assim como e uma maior capacidade para satisfazer atender as demandas ambientais e de mercado.
Em menos de 24 meses, nas propriedades monitoradas, a carga animal aumentou 38,2% (de 1,71 a 2,36 animais por hectare), em fazendas leiteiras a produção aumentou uma média de 5,68 a 7,75 litros por vaca por dia, enquanto no caso da soja, o aumento de produtividade foi de 17%.
Temos plena convicção de que o meio ambiente e a agricultura caminham de mãos dadas. Notamos a prosperidade das famílias que adotaram essas mudanças, refletida no aumento da produção, no retorno financeiro e em uma maior compreensão da harmonia ambiental, prioridade para a empresa.
Ampliar o acesso à assistência técnica é uma das grandes oportunidades para impulsionar a produtividade e a sustentabilidade no Brasil. De acordo com o Censo Agropecuário mais recente, apenas 20,1% dos produtores rurais declararam ter recebido assessoria técnica.
A experiência permitiu a estruturação de acordos institucionais adaptados à realidade local, definindo a frequência adequada de serviço e identificando práticas de manejo de baixo custo. Os resultados demonstram o potencial de aplicar modelos como esses que conectam a assistência técnica, a gestão, a regularização ambiental e o acesso a políticas públicas e ao financiamento em maior escala. O objetivo para 2030 é alcançar 500 produtores com estas lições por meio de alianças estratégicas.
A fazenda Laranjal, em Nova Xavantina, é um dos casos de sucesso do projeto. Após três anos de acompanhamento técnico, a produtividade aumentou em 27%. Nas pastagens, que estavam degradadas em cerca de 70%, o projeto incorporou sistemas que integram a agricultura, a pecuária e a floresta. Além disso, a atividade produtiva foi diversificada e, além do leite, passou a produzir sistemas que incluem baru, eucalipto, mamão-papaia, banana, milheto, sorgo e milho para silagem, insumo que vem sendo comercializado como renda adicional, evidenciando que as práticas regenerativas fortalecem a resiliência climática, reduzem custos e ampliam a estabilidade financeira das comunidades.
Dando escala à regeneração na América Latina
Ampliar a transição para uma nova forma de produzir alimentos de maneira sustentável em escala de paisagem é um esforço coletivo. Foi assim que entenderam os pecuaristas do México, da Guatemala e de Belize, que deram passos importantes rumo a uma transformação que vai além das fronteiras de cada país e é pensada para a Selva Maia como um todo.
Com o apoio do Latin America Conservation Council (LACC) e da TNC, eles construíram uma agenda compartilhada voltada para a identificação de melhores práticas, custos, financiamento, rastreabilidade, fortalecimento das cadeias de valor e acesso a mercados para a pecuária sustentável.
Uma das conquistas de destaque foi a consolidação de uma Mesa Trinacional de Pecuária Sustentável, com o objetivo de melhorar os meios de subsistência, promover a restauração da paisagem pecuária e contribuir para a conservação da biodiversidade da Selva Maia
Como parte do projeto, foi fortalecida uma rede de núcleos de produtores e fazendas demonstrativas que permitiu multiplicar conhecimentos sobre a implementação de práticas voltadas à transição para a pecuária sustentável e gerar evidências para sua ampliação em escala. Em parceria com associações e sindicatos de pecuaristas, instituições públicas e organizações parceiras, foram capacitados técnicos e produtores, promovido o acesso a incentivos florestais e opções de financiamento, além do desenvolvimento de ferramentas de planejamento que facilitaram a adoção de sistemas silvipastoris.
Por meio de uma visão e missão compartilhadas por todas as partes, acreditamos que é possível alcançar tanto a rentabilidade quanto a sustentabilidade.
Ao estarmos associados, ajudamo-nos mutuamente e fortalecemos nossa capacidade de buscar apoio para a formação técnica de jovens, mulheres e, de modo geral, dos produtores, em temas relacionados à pecuária sustentável.
Fazer parte do Projeto de Pecuária Sustentável marcou um ponto de virada para mim. Ganhei confiança, ampliei meus conhecimentos e isso é apenas o começo.
Diante das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e dos desafios sociais que a região enfrenta, a conversão de sistemas produtivos tradicionais em sistemas regenerativos, centrada em soluções baseadas na natureza e no cuidado da vida, torna-se cada vez mais urgente.
A América Latina avança rumo à regeneração do solo, tanto na produção de alimentos quanto na proteção dos ecossistemas, em benefício do bem-estar social e econômico. Entender os caminhos percorridos pelos nossos alimentos faz parte da regeneração.
“O risco não é mais a mudança, mas sim continuar fazendo igual.
A história continua...
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