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A próxima fase da agenda ambiental será construída pela economia real

Agenda ambiental amadurece para além dos argumentos éticos, incorporando fundamentos econômicos cada vez mais sólidos

Por: Marcio Sztutman - Diretor Executivo da TNC Brasil

floresta com o sol vazando

Ultimamente tem se disseminado a percepção de que a agenda ambiental perdeu força. Retrocessos regulatórios, tensões geopolíticas, guerras, dificuldades econômicas alimentam a percepção de que a conservação entrou em uma fase defensiva. Essa leitura, no entanto, captura apenas um momento de um processo mais amplo e complexo. A trajetória das políticas ambientais nunca foi linear. Os grandes avanços sempre foram intercalados por momentos de resistência, reorganização e revisão de estratégias, e o momento atual se insere nesta dinâmica.

Há, sem dúvida, retrocessos importantes, que coexistem com transformações mais silenciosas que têm potencial de redefinir a forma como a sociedade valoriza a conservação. A principal delas é a transição da agenda ambiental para uma lógica mais integrada à economia real.

Instrumentos tradicionais, como comando e controle, por exemplo, continuam sendo fundamentais, mas têm limites naturais de escala e permanência. A próxima etapa exigirá mecanismos capazes de incorporar a conservação às decisões de investimento, às estratégias empresariais e ao funcionamento das cadeias produtivas.

O fim da Moratória da Soja ilustra bem essa transição. Independentemente das avaliações sobre seus resultados, a experiência deixa uma lição importante: mecanismos sustentados apenas por restrições ou compromissos voluntários dificilmente se mantêm no longo prazo. As soluções precisam estruturar incentivos econômicos permanentes, distribuindo responsabilidades e benefícios ao longo de toda a cadeia produtiva. Produtores, instituições financeiras, empresas de insumos, tradings, varejo e consumidores compartilharão os custos e as oportunidades dessa transformação.

Esse movimento pode ser observado em iniciativas como as concessões florestais para restauração de áreas degradadas. Nesse modelo, áreas públicas não destinadas e ilegalmente desmatadas são concedidas, por prazo determinado e mediante contrapartida financeira, à iniciativa privada para recuperação da vegetação nativa, mantendo a propriedade pública. A concessionária assume metas de restauração, monitoramento, geração de empregos e desenvolvimento de atividades econômicas compatíveis com a conservação, como créditos de carbono e cadeias produtivas florestais.

Mais do que um novo instrumento de política pública, as concessões de restauração representam uma mudança de paradigma. Áreas públicas degradadas deixam de ser passivos e passam a se tornar ativos capazes de atrair investimento, gerar renda e recuperar serviços ecossistêmicos.

Esse movimento vai além das florestas. Empresas intensivas em recursos naturais perceberam que conservar ecossistemas deve ser parte da estratégia de gestão de riscos. Segurança hídrica, estabilidade climática e biodiversidade passam a influenciar diretamente a produtividade, os custos e as cadeias de suprimento. Com isso, a natureza tem ganhado espaço nas decisões corporativas.

A agricultura talvez seja o setor em que essa transformação seja mais evidente. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos tem elevado custos e reduzido a eficiência do modelo convencional de produção. A crescente demanda por produtividade passa a estar associada à necessidade de construir sistemas mais resilientes. É nesse contexto que agricultura regenerativa, bioinsumos e recuperação de pastagens degradadas se consolidam como estratégias de competitividade.

A mesma lógica se aplica à bioeconomia. Durante muito tempo, ela foi apresentada quase exclusivamente como uma alternativa de geração de renda para populações tradicionais. Hoje, ocupa um papel estratégico na diversificação da economia brasileira. O avanço regulatório e o fortalecimento de cadeias produtivas apostam que a o desenvolvimento de novos mercados e produtos também podem impulsionar a conservação.

Essa integração representa um sinal de amadurecimento do entendimento da agenda ambiental. Ao dialogar com os desafios concretos enfrentados por governos, empresas e cidadãos, deixa de ser restrita aos departamentos de sustentabilidade ou aos debates especializados. A natureza passa a ser reconhecida como infraestrutura indispensável para o funcionamento da economia.

Essa mudança também explica por que, mesmo em um cenário internacional marcado por incertezas, os investimentos seguem ativos. Empresas mantém investimentos em restauração, segurança hídrica, agricultura regenerativa e soluções baseadas na natureza porque estes ativos são críticos para seus negócios. Investidores começam a direcionar capital para projetos ligados à bioeconomia, aos biocombustíveis e à recuperação de paisagens degradadas, sinalizando que a transição para uma economia de baixo carbono já ultrapassou o campo do discurso e começa a se consolidar como estratégia de mercado.

Nada disso elimina os desafios do presente. A crise climática avança, a perda de biodiversidade segue acelerada e o contexto geopolítico pressiona economias e cadeias produtivas. A pergunta central deixa de ser quanto custa conservar e passa a ser quanto custa não conservar.

Estamos diante de uma mudança estrutural. A agenda ambiental avança para além dos argumentos éticos, incorporando fundamentos econômicos cada vez mais sólidos. Sem substituir a importância das políticas públicas, da ciência ou da cooperação internacional, essa integração amplia sua capacidade de influenciar decisões sobre investimentos, produção e desenvolvimento.

 

Texto publicado originalmente 14/07/2026 em UmSóPlaneta