Período de seca níveis baixos de água tornaram intransitáveis os rios próximos a São Francisco de Marina, no Brasil. Um homem puxa seu barco por algumas das áreas mais rasas. © Santiago Mesa
A bacia do Rio Amazonas é a maior bacia hidrográfica do mundo, cobrindo uma área quase equivalente à dos Estados Unidos continentais, estendendo-se por nove países e por muitos Territórios Indígenas. Berço de um quinto da água doce disponível do planeta, é um ecossistema tão importante para o carbono e para os ciclos meteorológicos que é às vezes chamado de “os pulmões do planeta”. Conforme o clima do planeta sofre mudanças, a importância da bacia só aumenta: a floresta Amazônica é responsável por cerca de um quarto do dióxido de carbono absorvido por todas as florestas da Terra.
No entanto, as últimas três décadas testemunharam uma crise na Amazônia. Níveis irregulares de água no Rio Amazonas—os mais baixos de qualquer outra época do último século—se misturam ao desmatamento, aos incêndios florestais e à poluição hídrica para perturbar o equilíbrio natural entre a floresta, os rios e as pessoas. As mudanças climáticas intensificam eventos de grande magnitude, como El Niño, secas e incêndios florestais. Além disso, a redução da cobertura florestal prejudica o ciclo hídrico local ao diminuir
a capacidade da região de produzir sua própria chuva. Alguns cientistas agora temem que a floresta tropical esteja prestes a perder a capacidade de absorver mais carbono do que liberar, o que significa que a bacia florestal pode se tornar mais um vetor das mudanças climáticas.
Silvia Benitez, diretora de água doce da Região Latino-americana da The Nature Conservancy (TNC), e uma equipe de cientistas de conservação lançaram recentemente um relatório técnico que apresenta modelos dos impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Os dados preveem chuvas e níveis de rios ainda mais irregulares nas próximas décadas.
Silvia, uma equatoriana formada pela Yale School of the Environment, atua na TNC há 24 anos e está sediada em Bogotá, na Colômbia. É apaixonada pela conservação de água doce, e isso fica claro quando fala entusiasticamente sobre as arraias de água doce, bagres que mais parecem dinossauros e preguiças que nadam no Rio Amazonas. Hoje em dia ela está preocupada com o futuro que aguarda esses incríveis recursos hídricos e toda a Amazônia.
Silvia Benitez, diretora de água doce da TNC na América Latina, explica como as mudanças climáticas e o desmatamento estão tornando mais voláteis as chuvas, antes previsíveis, da região.
P: Você ajudou a escrever um relatório que investiga os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia. Como devemos enxergar a Amazônia? É uma floresta? Um rio? Um ecossistema? Quando eu digo Amazônia, me refiro à Bacia Amazônica. É isso que você desenharia em um mapa: uma enorme rede de rios que abastecem o Rio Amazonas, que deságua no Oceano Atlântico. Ela inclui montanhas altas e cobertas de neve, terras baixas tropicais e planícies de inundação. Mas eu também a vejo como um sistema que conecta a água doce, a floresta, os animais e as pessoas. E tudo isso está conectado ao clima. Essa é uma das nossas mensagens principais: tudo está interconectado.
P: Qual a sua expectativa sobre como as mudanças climáticas afetam o sistema? Infelizmente, as mudanças climáticas já estão aqui. Para nosso relatório, conduzimos simulações com dados históricos de vazão, temperatura e precipitação referentes ao período de 1981 a 2010. Por meio da modelagem de séries temporais, que analisa estatisticamente dados ao longo do tempo e prevê valores futuros, projetamos possíveis resultados até 2050. Os resultados mostraram algo que já acontece e tende a piorar: o Rio Amazonas vai ficar mais seco. A projeção do fluxo anual indicou uma redução de até 48% na maior parte da bacia. De modo geral, haverá mais secas, que serão mais longas, ainda que algumas áreas possam ter um aumento do fluxo do rio de até 11%.
Já estamos vivenciando isso. Nos últimos três anos, o Rio Amazonas registrou as maiores quedas nos níveis de água em mais de um século. Já vemos barcos encalhados, o colapso da pesca e botos morrendo. Não estamos acostumados a períodos prolongados sem chuva.
P: Por que a Bacia Amazônica vai se tornar mais seca de modo geral? Temperaturas mais altas prolongam a época da seca que ocorre naturalmente. O calor também aumenta a evapotranspiração na Floresta Amazônica: as árvores suam e perdem mais umidade. Os rios ficarão mais quentes. É um sistema muito complexo que resultará em menos chuva. Mas também veremos inundações.
P: Então as mudanças climáticas trarão mais secas, mas também inundações? Essa é a questão com as mudanças climáticas: tudo se torna mais caótico. O Rio Amazonas tem muita água, mas em períodos prolongados de seca, as coisas secam. Recuperamos a água com as chuvas extremas. Geralmente, a chuva é distribuída ao longo do tempo para que o solo possa absorvê-la. Mas muita chuva em curto período de tempo causa enxurradas.
O sistema Amazônico tem um regime natural de movimento da água: um período em que as florestas ficam inundadas e outro em que as águas retornam aos rios. Quando esse período se torna mais extremo, a floresta sofre pressão porque fica mais seca do que o habitual. Árvores podem morrer; incêndios florestais podem ocorrer. Então, quando se inunda, alaga áreas que não estão acostumadas a ser alagadas. Em algumas áreas montanhosas, isso provoca deslizamentos de terra. Quando os ciclos climáticos se tornam extremos, afetam todo o sistema.
P: Como essas mudanças ambientais afetarão a vida selvagem na Amazônia? A Amazônia é singular. Nenhum lugar do mundo tem mais água doce nem mais biodiversidade de água doce.
Quando você pensa na África, imagina animais enormes e famosos: elefantes e rinocerontes. Na Amazônia, esses animais enormes vivem na água. Temos peixes enormes, como o pirarucu, um peixe de formato submarino que pode medir mais de três metros e pesar quase 200 quilos. Temos peixes-boi, botos, lontras neotropicais. Temos sucuris—as cobras mais pesadas do mundo—e elas também nadam. Às vezes é difícil ver essa biodiversidade porque ela está na água.
Eventos climáticos extremos na Bacia Hidrográfica
As mudanças climáticas não só causam secas na bacia, como também enchentes históricas.
Disaster: In March 2025, Pucallpa, Peru, experienced one of its worst floods in 15 years when the Ucayali River and the Yarinacocha Lagoon overflowed. Two boys use a boardwalk © Musuk Nolte/Panos Pictures/Redux
Deep Water: A town’s boulevard disappears under water from the flooded lagoon. © Musuk Nolte/Panos Pictures/Redux
Disruption: A resident walks through a flooded housing area in Pucallpa, Peru. Though the Amazon is becoming generally drier, unpredictable rain patterns are also causing extreme floods. © Musuk Nolte/Panos Pictures/Redux
Unhoused: Luzmila Picota wades through her home. She was able to remove some items from her house before it became completely submerged, forcing her to stay with relatives. © Musuk Nolte/Panos Pictures/Redux
P: Eu amo aquela ideia —do Rio Amazonas como um equivalente submerso do Serengeti ou do Okavango na África. A maior migração de peixes de água doce no mundo ocorre no Rio Amazonas. O bagre-dourado nasce no sopé dos Andes, viaja até a foz do Amazonas e então retorna—uma viagem de mais de 11.600 quilômetros. Hoje em dia, se as mudanças climáticas começarem a secar os rios, essa conectividade se perderá.
Os animais terrestres também utilizam a água. As onças-pintadas são ótimas nadadoras. Elas viajam e caçam na água. E outros animais, como as preguiças, usam a água doce. Elas também são ótimas nadadoras.
P: As preguiças nadam? É mesmo? As preguiças vivem nas árvores e se movem muito lentamente, então às vezes, uma boa maneira de fugir de um predador é cair na água, onde podem nadar e escapar. E existem outros animais. Eu amo as arraias. As arraias de água doce são animais fascinantes. A biodiversidade é linda e também importante para a floresta. Por exemplo, os peixes dependem das árvores para comer sementes e as árvores dependem dos peixes para espalhar as sementes. Existem muitas conexões entre a floresta, a água doce e as pessoas.
Os impactos da perda de água são enormes. Os poluentes podem se concentrar, contaminando a água potável. A pesca fica reduzida. As pessoas ficam isoladas. Já vimos isso.
P: Então, essas mudanças na hidrologia do Rio Amazonas também afetarão as pessoas? Como? Muitas comunidades dependem da água para consumo e para a alimentação. Para algumas pessoas, os peixes são a principal fonte de proteína. E mais de 80% dos peixes comestíveis capturados no Rio Amazonas são espécies migratórias. A maior parte da Amazônia não tem estradas porque as pessoas transitam pelo rio.
Grandes áreas da Amazônia são territórios de Povos Indígenas que vivem nelas há muito tempo. Suas crenças, suas culturas, suas vidas espirituais são construídas em torno dessa água. Mas os mercados também. Muitos grãos e alimentos para exportação chegam ao Atlântico pelo Rio Amazonas e seus tributários. Existem importantes cidades portuárias do Rio Amazonas, como Iquitos, no Peru, e Manaus, no Brasil. E muitos países sul-americanos dependem da energia hidroelétrica proveniente das águas da Bacia Amazônica.
Então os impactos da perda dessa água são enormes. Os poluentes podem se concentrar nela, comprometendo a qualidade da água potável. A pesca diminui. As pessoas ficam isoladas. Já vimos isso acontecer. Nas secas recentes, milhares de pessoas ficaram impossibilitadas de chegar aos estabelecimentos comerciais. Helicópteros tinham que lançar alimentos e remédios. No Equador, o baixo nível da água causou interrupções de energia elétrica de mais de 10 horas por dia. Os impactos foram sentidos localmente, mas também em lugares que sequer estavam muito próximos do curso principal do Rio Amazonas.
P: Existem efeitos ainda mais abrangentes? Eu li que o Rio Amazonas gera um de cada cinco pingos de chuva da Terra. É verdade. É um sistema enorme. A floresta Amazônica produz umidade que leva chuva a regiões fora da Amazônia—por exemplo, Bogotá, onde eu moro. Os cientistas acreditam que cerca de 30% da chuva que cai em Bogotá pode vir da Amazônia. E no sul, em direção à Argentina e ao sul do Brasil, uma grande parte da produção agrícola depende das chuvas provenientes da Amazônia. Então, as mudanças climáticas na Amazônia podem, eventualmente, afetar o sistema climático de grande parte do continente sul-americano.
P: O seu relatório não traz só más notícias; traz também sugestões. O que você gostaria que acontecesse? Acreditamos que as soluções provêm da natureza. Nossa pesquisa mostra que é importante focar na manutenção da conectividade do sistema amazônico. Isso pode reduzir o impacto da seca, pois, mesmo que uma área esteja seca, o rio continuará a fluir. As planícies de inundação podem ser fundamentais, pois atuam como esponjas e retêm a água. As áreas úmidas também podem estocar água na vegetação e no solo e, então, liberá-la vagarosamente durante uma seca. Se mantivermos as matas ciliares e as áreas úmidas, os impactos das mudanças climáticas serão mitigados. O sistema ficará mais resiliente.
Para proteger essa conectividade, precisamos que os nove países que abrigam a Amazônia colaborem, mas também de colaboração em outros níveis. Governos locais e municipais, parques nacionais e ONGs, como a TNC. E a coordenação entre os Territórios Indígenas é fundamental. Muitas das pessoas que vivem em países vizinhos são Povos Indígenas. Se existe alguém que entende como esse sistema funciona, são os Povos que vivem lá há séculos.
Então, promovemos planos de adaptação liderados localmente pelas comunidades e pelos Povos Indígenas. Devemos valorizar o conhecimento que os Povos Indígenas têm e escutar suas ideias. E não só escutá-las, mas também agir.
Sobre os autores
Ginger Strand é jornalista e autora sediada em Nova York. Seu trabalho frequentemente aborda a natureza, a ciência, a cultura e a história.
Santiago Mesa é cinegrafista de documentários sediado em Medellín, na Colômbia. Seu trabalho está focado em questões domésticas e sociais enfrentadas no país.
Musuk Nolte é um fotojornalista mexicano-peruano que cobre amplamente questões que afetam as comunidades das regiões dos Andes e da Amazônia.