A fruta que pode ajudar a impulsionar a restauração na Mata Atlântica
Por Arthur Chiacchio Petruccelli, Analista de Conservação da TNC Brasil
A Amazônia mostrou ao mundo que uma floresta em pé pode sustentar uma economia. O açaí talvez seja o melhor exemplo disso. Atualmente, a cadeia do fruto movimenta R$ 6 bilhões por ano e, somada à expansão do seu cultivo, a produção agrícola de açaí atingiu a marca de R$ 7,77 bilhões em 2024. O açaí tornou-se a prova de que uma espécie nativa pode atribuir valor econômico à floresta sem exigir sua derrubada. A boa notícia é que a Mata Atlântica também pode construir uma história semelhante. A principal candidata atende pelo nome de juçara (Euterpe edulis).
A comparação não é apenas botânica. Assim como o açaí, a juçara pertence ao mesmo gênero, Euterpe. Mas ela surge em um momento diferente. Se o açaí demonstrou que uma espécie nativa pode impulsionar uma economia baseada na floresta, a juçara começa a mostrar que restauração ecológica também pode ser um vetor de desenvolvimento. Seu potencial vai além da produção de frutos: ela ajuda a regenerar áreas degradadas, fortalece a biodiversidade e cria incentivos econômicos para manter a Mata Atlântica em pé.
Durante décadas, porém, a juçara ficou conhecida principalmente pela produção de palmito. Diferentemente da pupunha, ela morre após o corte e não rebrota. Cada extração representa o fim de uma árvore que levou anos para crescer. Segundo avaliação do Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), publicada pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 2012, Euterpe edulis Mart. (juçara) foi classificada como Vulnerável (VU) à extinção. A instituição atribui esse status principalmente à exploração predatória para obtenção de palmito e à fragmentação da Mata Atlântica, estimando uma redução de pelo menos 30% da espécie ao longo de aproximadamente 60 anos.
A ciência, no entanto, vem mostrando que o maior valor dessa palmeira nunca esteve no palmito. A juçara é considerada uma espécie-chave da Mata Atlântica porque seus frutos alimentam dezenas de espécies de aves e mamíferos, como tucanos, jacutingas e muriquis. Esse potencial já começa a ser aplicado na prática. Em 2025, a Embrapa e o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) anunciaram uma parceria para utilizar a juçara na recuperação de áreas degradadas do Sistema Cantareira, maior produtor de água da região metropolitana de São Paulo. Ao atrair dispersores de sementes, a espécie acelera a recomposição natural da vegetação e reduz a dependência exclusiva do plantio de mudas.
Além disso, ao contrário do palmito, os frutos da juçara podem ser colhidos todos os anos sem causar danos à planta, permitindo que a mesma árvore gere renda durante décadas. Essa simples mudança de perspectiva altera completamente a lógica econômica da espécie.
A juçara oferece à Mata Atlântica a oportunidade de construir um modelo próprio de desenvolvimento, em que conservação, restauração e geração de renda deixam de competir entre si e passam a se fortalecer mutuamente.
Você também pode ajudar a conservar a natureza!
Sua contribuição pode ajudar projetos inovadores em colaboração com comunidades locais.
Doe para a naturezaEm São Paulo, a Fundação Florestal estruturou uma política pública baseada na valorização da espécie. Segundo edital lançado pela instituição em 2026, cerca de 90 toneladas de sementes já foram dispersadas em Unidades de Conservação, contribuindo para restaurar aproximadamente 1.800 hectares de Mata Atlântica e beneficiando cerca de 350 famílias. No mesmo ano, o governo estadual aumentou em 23% o valor pago pelas sementes, que passou a R$ 15 por quilo, reforçando a percepção de que conservar também pode ser economicamente vantajoso.
Essas iniciativas revelam que a juçara pode, de fato, se tornar o centro de uma nova cadeia da bioeconomia. Em torno da espécie surgem oportunidades ligadas à produção de mudas, aos sistemas agroflorestais, à comercialização de sementes, aos pagamentos por serviços ambientais e até a alimentação escolar. A inclusão da polpa da juçara na merenda, discutida em diferentes projetos, tem potencial para ampliar o mercado da agricultura familiar, estimular o consumo de alimentos nativos e fortalecer economias locais associadas à conservação da Mata Atlântica.
Para atingir este potencial alguns desafios precisam ser superados. A cadeia produtiva da juçara está longe da escala alcançada pelo açaí. Faltam investimentos em beneficiamento, logística, pesquisa, assistência técnica e acesso a mercados, além de maior conhecimento do consumidor sobre o fruto. Mas estamos exatamente no momento que antecede uma grande transformação. Há poucas décadas, o açaí era consumido quase exclusivamente na região Norte. Hoje, tornou-se um produto global. A juçara percorre seus primeiros passos em uma trajetória semelhante.
Ainda é cedo para saber qual será a dimensão econômica dessa cadeia produtiva, mas talvez essa nem seja a pergunta mais importante. A juçara oferece à Mata Atlântica a oportunidade de construir um modelo próprio de desenvolvimento, em que conservação, restauração e geração de renda deixam de competir entre si e passam a se fortalecer mutuamente. Em um bioma que perdeu grande parte de sua cobertura original, recuperar a floresta dependerá não apenas de recursos públicos, mas da capacidade de fazer com que ela também gere oportunidades para quem vive em seu entorno.
Em Minas Gerais, o projeto AMA (Açaí da Mata Atlântica) Juçara, desenvolvido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) em parceria com organizações da sociedade civil, entre elas a The Nature Conservancy (TNC) Brasil, busca estruturar uma cadeia da juçara baseada na restauração florestal, na agricultura familiar e na bioeconomia. A iniciativa incentiva o plantio da espécie, fortalece viveiros, amplia o aproveitamento sustentável dos frutos, promove educação ambiental e trabalha para inserir a polpa da juçara em políticas públicas como a alimentação escolar. Ao conectar ciência, conservação e desenvolvimento local, o projeto demonstra que proteger uma espécie ameaçada pode ser também uma estratégia de desenvolvimento territorial.
O reconhecimento do AMA Juçara com o Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade, em 2026, simboliza justamente essa mudança de olhar. O prêmio não celebra apenas uma iniciativa de conservação. Ele reconhece um modelo que aproxima pesquisadores, produtores rurais, gestores públicos e comunidades em torno de um objetivo comum: transformar a restauração da Mata Atlântica em uma oportunidade de desenvolvimento.
Durante muito tempo, a Mata Atlântica foi lembrada sobretudo pelo que perdeu. A juçara nos convida a olhar para aquilo que ela ainda pode construir. Mais do que repetir a história do açaí, ela tem potencial para escrever uma trajetória própria, mostrando que restaurar florestas não significa apenas recuperar árvores, mas criar oportunidades, fortalecer comunidades e desenvolver uma economia baseada na biodiversidade.
Publicado originalmente em Investing.com
18 de agosto de 2026
Ver original