Os peixes esquecidos da Amazônia.
Celebrando a biodiversidade dos peixes amazônicos e sua relação vital com as pessoas e os rios.
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Espécies extraordinárias que sustentam o bem-estar dos ecossistemas e das comunidades.
BaixarMais de 2.700 espécies de peixes foram documentadas na Bacia Amazônica e a pesquisa científica continua a revelar novas espécies a cada ano. Quase dois terços desses peixes—aproximadamente 1.700 espécies—são endêmicos, ou seja, não são encontrados em nenhuma outra parte do mundo.
A formidável diversidade de peixes nessa região ultrapassa a nossa imaginação. Alguns são gigantes, inspirando histórias entre mito e realidade, como o pirarucu, que pode ser maior do que um ser humano e precisa ir à superfície para respirar, ou o bagre migratório, que percorre milhares de quilômetros dos Andes ao Oceano Atlântico.
Outras espécies são minúsculas e luminosas; algumas são armadas com dentes afiados como navalhas, enquanto outras geram eletricidade. Há também espécies cegas que vivem sob o solo da floresta; mestres da camuflagem que flutuam com as correntes como folhas caídas; e peixes de cores vibrantes que se assemelham a joias vivas nos riachos e planícies alagáveis da floresta. Todas estão conectadas pela água e pela intrincada rede de rios e áreas úmidas que as sustentam.
Povos Indígenas e sua relação com os peixes
A Amazônia é o lar de aproximadamente 511 Povos Indígenas que vivem em toda a bacia. Conservar os “peixes esquecidos” é inerente à proteção das comunidades que vivem em seus territórios. Salvaguardar as práticas culturais, os conhecimentos ambientais tradicionais e os direitos territoriais é essencial para a proteção dos ecossistemas de peixes e de água doce dos quais todos dependemos.
Rios
A rede invisível da vida
Até 30% da Bacia Amazônica é composta por rios, lagos, planícies aluviais, áreas úmidas e florestas sazonalmente inundadas. Juntos, esses sistemas hidrológicos interconectados formam a maior e mais complexa bacia fluvial do mundo, abrigando a maior diversidade de peixes de água doce do planeta e servindo de base ambiental, cultural e econômica da região.
Apesar desse papel essencial, os ecossistemas de água doce têm sido negligenciados há tempos na conservação, no desenvolvimento e nas estratégias climáticas.
Os rios amazônicos sobem e descem com as estações do ano.
- Dezembro e maio: as cheias atingem o pico.
- Junho e novembro: as águas baixam.
Essas inundações anuais fertilizam os solos das várzeas, conectam habitats, dispersam sementes e favorecem a reprodução dos peixes.
Esse ciclo é essencial à vida das comunidades amazônicas, moldando a forma de abordar a pesca, a agricultura e o transporte. Ao mesmo tempo, traz riscos aos dois extremos, por meio de inundações e de secas.
Três principais tipos de água ocorrem na bacia hidrográfica:
- Rios de água branca, ricos em nutrientes;
- Rios de água negra, pobres em nutrientes, ácidos e ricos em matéria orgânica dissolvida;
- Rios de água clara, com pH intermediário, bastante transparentes, com pouco ou nenhum sedimento e níveis bastante baixos de nutrientes.
Juntos, esses tipos de água criam condições ecológicas contrastantes que moldam a diversidade de peixes, a produtividade e os padrões de migração.
Biodiversidade
A Amazônia tem a maior diversidade de peixes de água doce da Terra
As espécies de peixes em toda a Bacia Amazônica não são apenas extraordinariamente diversas—sua composição também é única.
Aproximadamente dois terços (65%) são endêmicos da Amazônia, ou seja, não são encontrados em nenhuma outra parte do mundo.
Mais de 2.700 espécies extraordinárias foram catalogadas em toda a Bacia Amazônica, o que representa cerca de 15% de todas as espécies de peixes de água doce conhecidas no mundo. Dúzias de espécies são adicionadas a cada ano, já que as investigações científicas continuam a descobrir novas espécies.
Mais de 100 espécies de peixes realizam migrações de longa distância, com bagres e caracídeos representando a maioria desses deslocamentos. O bagre-dourado (Brachyplatystoma rousseauxii) realiza a maior migração do mundo, percorrendo aproximadamente 11.600 quilômetros entre a Amazônia Andina e o Oceano Atlântico, retornando ao ponto de partida.
Peixes assombrosos da Amazônia
Combatendo o esquecimento
Conheça alguns dos habitantes mais singulares das águas que irrigam a Bacia Amazônica.
Talvez seja o maior consumidor de frutas e dispersor de sementes do mundo aquático. É muito importante para a regeneração da floresta.
Viajam mais de 11.000 km dos Andes ao Atlântico. O documentário “Uma viagem épica” evidencia a magnitude de sua migração.
Siga sua jornada
Uma lenda amazónica que pode alcançar até 3 metros de comprimento e pesar até 200 kg! É uma das principais fontes de proteína para as comunidades amazônicas.
Podem gerar descargas de até 860 volts, a maior potência bioelétrica registrada no reino animal
Seus corpos blindados e suas poderosas bocas sugadoras lhes permitem sobreviver, inclusive em águas mais agitadas
Seu disfarce é uma tática predatória sofisticada para prender pequenos peixes que nadam entre as “folhas caídas” no rio.
Este peixe quase transparente se alimenta de sangue e, apesar de ser extremamente pequeno, inspira um medo enorme.
Este peixe é tão singular que levou os pesquisadores a criar, em 2017, uma família completamente nova (Tarumaniidae) para descrevê-lo.
A Amazônia e sua diversidade global
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+2.700
espécies de peixes percorrem suas águas.
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15%
das espécies de peixes do planeta vivem na Bacia Amazônica.
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2/3
dos peixes amazônicos são endêmicos.
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144
dessas espécies estão ameaçadas.
A biodiversidade de peixes da Amazônia é tão extraordinária quanto esquecida. Apesar de sua imensa importância, ainda sabemos relativamente pouco sobre muitas dessas espécies. Os peixes são um indicador-chave da saúde da bacia e da conectividade dos seus ecossistemas de água doce. Eles têm um papel essencial na ciclagem de nutrientes, na dispersão de sementes e no sustento de comunidades locais que dependem deles para sua segurança alimentar e sobrevivência.
Comunidades
Na cosmologia Indígena, nenhum ser é esquecido
A conservação dos “peixes esquecidos” da Amazônia está estreitamente ligada à proteção dos Povos Indígenas, das comunidades locais e de seus territórios.
A Bacia Amazônica abriga aproximadamente 511 Povos Indígenas que atuam como guardiões e defensores da natureza.
Essas comunidades possuem sistemas de conhecimento sofisticados profundamente ligados ao mundo natural. Lá, os sistemas de água doce são essenciais à vida. Muitas comunidades se identificam como “povos das águas” e estabeleceram suas aldeias ao redor de rios e lagos, que lhes proporcionam sustento e transporte.
Os peixes desempenham um papel vital nas dietas dessas sociedades. No entanto, o consumo de peixes e de outros animais da floresta é regido por normas culturais e espirituais complexas. Nem todas as espécies são consideradas comestíveis, e as que são podem não ser adequadas a todos ou permitidas em todos os momentos.
A conservação dos “peixes esquecidos” da Amazônia está diretamente ligada à proteção dos Povos Indígenas e de seus territórios. A conservação biocultural é essencial: salvaguardar as práticas culturais Indígenas, o conhecimento ambiental tradicional e os direitos territoriais é intrínseco à proteção das populações de peixes e dos ecossistemas de água doce dos quais todos dependemos.
Pesca
Amazônia: entre a pesca artesanal e a comercial
Nas últimas cinco décadas, comunidades locais em toda a Amazônia tomaram as rédeas da gestão de suas pescas, demonstrando que a conservação e o bem-estar humano podem caminhar lado a lado.
Com exceção da pesca industrial de piramutaba no estuário do Rio Amazonas, no Brasil, toda a atividade de pesca da região é conduzida em pequena escala por populações ribeirinhas e comunidades Indígenas que dependem diretamente dos peixes como alimento, sobrevivência e renda.
Ao menos 15 métodos de pesca diferentes foram documentados em toda a bacia, quase todos tradicionais e ambientalmente sustentáveis. Entre os mais amplamente utilizados estão as redes de emalhar, cujo tamanho da malha pode ser ajustado para atingir espécies específicas— particularmente eficazes em rios de correnteza lenta e lagos de planície aluvial—e as redes de cerco de nylon multifilamento, que são utilizadas para cercar cardumes de peixes em águas mais profundas e ao longo de praias arenosas.
Os ciclos anuais de cheia e vazante dos rios amazônicos afetam diretamente onde, quando e como os pescadores locais operam. Conforme os níveis de água variam, os pescadores se deslocam entre as planícies aluviais e os principais canais de rios e lagos, adaptando suas estratégias às condições de cada estação
As mulheres desempenham papéis centrais nas atividades pesqueiras — não só como pescadoras, mas também como comerciantes, processadoras e administradoras de lares — ajudando a garantir que os benefícios da pesca sustentem famílias e comunidades.
A produção da pesca comercial na Bacia Amazônica é dominada por poucas espécies e áreas de pesca, embora haja claras diferenças regionais na composição da captura. Os dados mostram que apenas 30 espécies de peixes representam aproximadamente 90% do total desembarcado
Ameaças
Fatores que ameaçam os peixes amazônicos
Quando uma espécie se enfraquece por causa de uma ameaça, torna-se mais vulnerável aos impactos de outras
Das 2.700 espécies que habitam a Bacia Amazônica, 82 são classificadas como criticamente em perigo (CR), em perigo (EN) ou vulneráveis (VU), e 144 estão na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No entanto, o número é provavelmente muito maior, já que muitas espécies não foram avaliadas segundo os critérios da IUCN.
Os habitats dos peixes amazônicos estão sob pressão crescente em várias frentes. Atividades humanas, tais como a construção de represas, a drenagem de áreas úmidas, a canalização e os desvios de rios, podem transformar dramaticamente o mundo subaquático, destruindo as áreas das quais os peixes dependem para alimentação, reprodução e migração.
O desmatamento impulsionado pela agricultura, pela expansão urbana, pela mineração e pelo desenvolvimento de infraestrutura alterou significativamente as áreas úmidas e os sistemas fluviais. Um mapeamento recente da bacia mostrou que aproximadamente 7,4 milhões de hectares de áreas úmidas foram desmatados desde 2020.
Ainda que os desafios enfrentados pelos extraordinários peixes da Amazônia sejam indiscutivelmente imensos, há também uma esperança real para o futuro. A chave para a sua sobrevivência—e para a continuidade dos serviços vitais que prestam a milhões de pessoas — está na restauração e na proteção dos ecossistemas de água doce dos quais dependem.
Uma história que reflete as consequências...
Tradicionalmente, o Povo Kichwa de Ongota comemora com o peixe jundiá, símbolo central de suas festividades. No entanto, devido à poluição urbana, a espécie já não é encontrada na região, e a comunidade agora precisa comprar o peixe proveniente de outras áreas para continuar essa comemoração ancestral.
Recomendações
A saúde da Bacia Amazônica depende da cooperação transfronteiriça
O destino dos peixes amazônicos depende de sua habilidade de compreender a bacia como um sistema interconectado e em constante mudança.
Plano de Recuperação de Emergência, desenvolvido por 25 autores de 14 organizações, destaca a crise global da biodiversidade hidrológica e apresenta seis ações prioritárias para orientar a política voltada à reversão da perda da biodiversidade.
Recomendações de Especialistas
Ações Urgentes
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Gestão da Amazônia em escala para reduzir os impactos das represas e de outras barreiras físicas, equilibrando a conservação dos ecossistemas com as necessidades energéticas da região.
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As iniciativas de conservação beneficiam não só os ecossistemas, mas também os Povos Indígenas e as comunidades locais, preservando o acesso a áreas de pesca, à água limpa e ao transporte.
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Incorporar o conhecimento de pescadores locais e dos Povos Indígenas nas estratégias de gestão das áreas de pesca, para garantir que estas sejam efetivas, culturalmente adequadas e sustentáveis para a Amazônia.
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Conseguir isso requer o reconhecimento das necessidades específicas dos ecossistemas de água doce, de sua natureza interconectada e da importância dos esforços de conservação transfronteiriços.
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Fortalecer os regulamentos que regem o comércio e os sistemas de monitoramento pesqueiro, ao mesmo tempo em que se engajam as comunidades locais na vigilância e na gestão dos esforços de proteção e restauração dos ecossistemas afetados.
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Integrar a ciência e a tecnologia ao conhecimento tradicional de Povos Indígenas e de comunidades locais, que têm preservado esses ecossistemas aquáticos há gerações.
Comitê técnico
Essas estratégias regionais e locais, combinadas com o engajamento de governos, da sociedade civil e de organizações locais e internacionais, podem ampliar o impacto do Plano de Recuperação de Emergência e posicionar a Amazônia como um modelo global de conservação e de uso sustentável dos recursos hídricos.
O destino dos peixes amazônicos depende da nossa capacidade de compreender a bacia como um sistema interconectado e em constante movimento. A responsabilidade de salvaguardar sua biodiversidade é de todos nós. O primeiro passo que podemos dar para proteger essas espécies é reconhecê-las—e não as esquecer.
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Descobrindo a biodiversidade de peixes da Amazônia e sua relação vital com os rios e as comunidades - Relatório completo
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