Frutas nativas da Mata Atlântica conectam restauração florestal, alimentação escolar e desenvolvimento territorial
Cadeias da Mata nasce para fortalecer negócios da sociobiodiversidade
As frutas nativas da Mata Atlântica vêm ganhando espaço em iniciativas que conectam restauração florestal, alimentação saudável e fortalecimento das economias locais com geração de renda. Espécies como cambuci, juçara e uvaia passaram a integrar ações voltadas à estruturação de cadeias produtivas sustentáveis, conectando diferentes elos da sociobiodiversidade e aproximando agricultores familiares, cooperativas, pesquisadores, gestores públicos, escolas e consumidores em torno de uma agenda comum de produção sustentável.
Mais do que ampliar o consumo dessas espécies, o movimento busca transformar as frutas nativas em um vetor de desenvolvimento econômico, capaz de gerar renda para agricultores familiares, conservar a floresta em pé e valorizar os saberes e as culturas alimentares da Mata Atlântica. A proposta conecta produção, processamento e mercado, promovendo circuitos curtos de comercialização, desenvolvimento de novos produtos e abertura de canais de venda.
O fortalecimento da cadeia de frutas nativas ajuda a conectar conservação, cultura, produção e segurança alimentar. Quando essas espécies passam a integrar políticas públicas e entram no cotidiano das escolas e das comunidades, ampliamos o reconhecimento do valor da sociobiodiversidade
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Doe para a naturezaDentro dessa estratégia, o projeto Frutas Nativas da Mata Atlântica no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) demonstrou o potencial dessas espécies para integrar a alimentação escolar. Desenvolvido em 2024, o projeto foi coordenado pelo Instituto Regenera, Instituto Fronteiras do Desenvolvimento, Instituto H&H Fauser e Mombora, com apoio da TNC Brasil, envolvendo os municípios paulistas de Paraibuna, Santa Branca, São Sebastião, Ilhabela e Jundiaí.
A experiência buscou inserir alimentos nativos nos cardápios das escolas públicas, valorizando a agricultura familiar e aproximando os estudantes dos alimentos e dos territórios onde vivem. Para isso, o projeto promoveu diagnósticos locais, encontros técnicos, rodas de conversa e testes de aceitabilidade com estudantes, nutricionistas, merendeiras e gestores públicos, fortalecendo a integração entre os diferentes atores envolvidos na alimentação escolar.
Para Daniella Rabello, diretora de Programas e Articulação Territorial do Instituto Regenera, um dos principais resultados do projeto foi justamente demonstrar a capacidade da alimentação escolar de conectar diferentes atores, gerando impactos que extrapolam os limites das escolas. “O principal aprendizado foi compreender que inserir frutas nativas na alimentação escolar vai muito além da venda de um produto. É uma estratégia capaz de mobilizar toda a cadeia produtiva. O PNAE mostrou que a alimentação escolar pode funcionar como um importante indutor do desenvolvimento territorial e da economia da sociobiodiversidade”, afirma.
Os impactos alcançaram diferentes elos da cadeia. Para os produtores rurais, a iniciativa criou oportunidades de avançar na regularização ambiental, acessar novos mercados e fortalecer a atividade econômica. Entre os estudantes, estimulou hábitos alimentares mais saudáveis e a valorização dos alimentos produzidos no próprio território. Já para os municípios, contribuiu para o desenvolvimento local, o resgate da cultura alimentar regional e a diversificação dos cardápios escolares. A aceitação dos produtos desenvolvidos, especialmente para a rotina das cozinhas escolares, reforçou esse potencial. O pão de aveia com polpa de juçara alcançou até 92% de aprovação entre os alunos, enquanto o doce de banana com cambuci, sem adição de açúcar, registrou 86% de aceitabilidade.
A experiência de Caraguatatuba reforça a importância da articulação com o poder público para que as frutas nativas conquistem espaço na alimentação escolar. No município, o cambuci enfrentou inicialmente resistência para entrar nas compras destinadas à merenda, mesmo após apresentar boa aceitação em testes. A persistência e o trabalho de sensibilização da Secretaria de Educação sobre a produção local, o valor nutricional da fruta e os benefícios para os agricultores contribuíram para mudar esse cenário.
“O primeiro desafio foi não desistir no primeiro ‘não’ da Secretaria de Educação”, conta Cláudia Cristina Alves Viana, técnica agropecuária da Prefeitura de Caraguatatuba. Segundo ela, foi necessário mostrar “o tamanho da produção local e o quanto o cambuci é rico em vitaminas e fortaleceria o produtor local”. A experiência demonstrou que esse objetivo depende de uma atuação integrada entre agricultura, educação, meio ambiente, assistência técnica, processamento, mercado consumidor e políticas públicas.
O projeto também mostrou desafios como a baixa inserção dessas espécies nos mercados, o desconhecimento da população sobre seus usos e benefícios e a necessidade de ampliar a infraestrutura de processamento e logística. Para Cláudia, um dos principais aprendizados é que incentivar a produção não basta, é preciso ter estrutura para dar segurança aos agricultores e garantir a continuidade da atividade. “É necessário garantir mercado. Políticas públicas como o PNAE abrem portas importantes para a garantia da produção, bem como para a manutenção do produtor no meio rural, gerando renda e consumo”, destaca.
Para ampliar o alcance da experiência e apoiar sua replicação em outros territórios, os principais aprendizados e resultados foram sistematizados em uma cartilha de boas práticas e em um hotsite, que reúne receitas, experiências e orientações para gestores públicos. Assim, além dos resultados alcançados nos municípios participantes, o projeto deixou caminhos e ferramentas para replicar a experiência em outras regiões, expandir a presença das frutas nativas na alimentação escolar e fortalecer as bases dessa cadeia na Mata Atlântica.
Cadeias da Mata amplia atuação pela sociobiodiversidade
Os aprendizados do Projeto Frutas Nativas PNAE mostraram que inserir produtos da sociobiodiversidade na alimentação escolar vai além de criar um novo mercado para os agricultores. A experiência também evidenciou a oportunidade de transformar iniciativas locais em uma estratégia capaz de fortalecer os negócios na Mata Atlântica.
A partir da identificação de desafios comuns entre as organizações envolvidas no Projeto Frutas Nativas, ganhou força o Cadeias da Mata, iniciativa criada para dar continuidade à articulação e ao fortalecimento dessa cadeia produtiva. Nesse processo, o Instituto Auá, com atuação voltada ao empreendedorismo socioambiental, passou a integrar o grupo, ampliando a rede e contribuindo com sua experiência. Questões relacionadas à organização da produção, ao processamento, à logística, ao acesso a mercados, ao desenvolvimento de produtos, às políticas públicas e à governança evidenciaram a necessidade de uma atuação conjunta e coordenada.
O Cadeias da Mata nasceu, assim, como um movimento colaborativo que reúne conhecimentos, experiências e capacidades institucionais em torno das cadeias produtivas das frutas nativas da Mata Atlântica, conectando sociobiodiversidade e desenvolvimento territorial. Ao aproximar instituições que atuam em diferentes frentes, a iniciativa fortalece o diálogo entre produtores, mercado e poder público, dá maior direcionamento às ações e amplia seu alcance. Atualmente, o grupo busca envolver novos atores, incorporar outras cadeias e construir soluções conjuntas que gerem oportunidades nos territórios e contribuam para a conservação do bioma.
A proposta é consolidar o Cadeias da Mata como uma plataforma de articulação e inovação, aproximando diferentes elos da cadeia, o consumo e as políticas públicas. Entre as ações previstas está também a construção de uma plataforma geoespacial, que reunirá informações sobre os produtores, sua produção e localização, contribuindo para ampliar as conexões e fortalecer a cadeia. Com essa atuação integrada, a iniciativa busca criar condições para ampliar a escala dos negócios sustentáveis.
“O potencial das frutas nativas está justamente em sua capacidade de gerar múltiplos benefícios simultaneamente: produzir renda para quem conserva, valorizar conhecimentos e culturas locais, proteger a Mata Atlântica e oferecer alimentos mais diversos e nutritivos para a sociedade. É essa convergência de impactos que orienta a atuação do Instituto Regenera e inspira a construção do grupo Cadeias da Mata”, destaca Daniella.
A expectativa é que essas conexões ampliem a presença dos produtos da sociobiodiversidade nos mercados institucionais e privados, criem oportunidades econômicas nos territórios e contribuam para sistemas alimentares mais saudáveis e resilientes. “Acreditamos na força da articulação entre diferentes conhecimentos e experiências. O Cadeias da Mata nasce com o propósito de conectar saberes e construir, coletivamente, soluções duradouras que gerem frutos para a conservação da Mata Atlântica e para as pessoas que vivem e produzem nesses territórios”, destaca Marina.