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Em um planeta sob pressão, adaptação e resiliência são os desafios que unem as três Convenções da ONU

Por Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas da TNC Brasil

Savannah revives Savannah revives // After a strong fire that destroyed thousands of areas of savannah, the vegetation began to recover. Photograph recorded in Chapada dos Veadeiros National Park, located in the midwest region of Brazil. © JORGE ANDRE DIEHL/TNC Photo Contest 2022

Neste ano, três das principais negociações ambientais multilaterais colocam governos diante de agendas que costumam avançar em trilhas próprias, mas que se encontram cada vez mais no território. A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação aconteceu em agosto na Mongólia. Em outubro, será a vez da COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, na Armênia. Depois, a COP31 do Clima voltará a reunir os países na Turquia para discutir como acelerar as ações de enfrentamento ao aquecimento global. A proximidade entre esses encontros é uma oportunidade para reconhecer algo que os impactos ambientais já demonstram na prática: não é possível responder adequadamente às mudanças climáticas sem conservar a biodiversidade e enfrentar a degradação da terra, assim como será cada vez mais difícil proteger ecossistemas e recuperar paisagens em um planeta mais quente.

Essa relação ganha importância particular em um momento de forte evidências de ocorrência de um El Niño de alta intensidade. O fenômeno é natural, mas seus efeitos acontecem hoje sobre condições climáticas já alteradas por pelo aumento de emissões de gases de efeito estufa e por investimentos ainda insuficientes em adaptação. Secas e outros eventos extremos atingem territórios onde a degradação dos solos, a pressão sobre os recursos hídricos e a perda de biodiversidade podem reduzir a capacidade de resposta dos ecossistemas e das populações. É justamente nessa interseção que as agendas das três convenções deixam de ser apenas temas de negociações internacionais distintas e passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre resiliência.

A COP17 de Desertificação ofereceu um exemplo claro dessa convergência. Essa convenção tem como objetivo negociar medidas globais para combater a degradação do solo, mitigar os efeitos da seca e promover o uso sustentável da terra. Nesse contexto, é importante destacar o compromisso assumido pelo Brasil com a meta de Neutralidade da Degradação da Terra, conhecida pela sigla LDN, concentrada principalmente na recuperação de 16,3 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030. Embora sua implementação esteja atrasada, essa deve ser tratada como uma prioridade nacional diante da urgência de ampliar ações, pois atuam também como medidas de adaptação às mudanças climáticas, cujos impactos se aceleram. A dimensão da meta coloca o Brasil entre os países com maior área comprometida com ações de restauração e conservação do solo no âmbito da agenda da UNCCD.

É justamente nessa interseção que as agendas das três convenções deixam de ser apenas temas de negociações internacionais distintas e passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre resiliência.

Karen Oliveira, Diretora de Políticas Públicas e Relações Governamentais da TNC Brasil

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Para o Brasil, porém, o resultado mais relevante da COP17 não se resume à meta de recuperação anunciada. Está também na consolidação da terra e da água como eixos centrais da sinergia entre clima, natureza e pessoas. Esse entendimento reforça a necessidade de ampliar os investimentos em restauração de bacias hidrográficas, especialmente na Caatinga e no Cerrado, e em boas práticas de agricultura resiliente, tratadas como soluções integradas para o clima, a biodiversidade e o desenvolvimento rural. Com isso, ganham força três frentes particularmente estratégicas para o país: a segurança hídrica, a restauração produtiva de paisagens e o financiamento da adaptação baseada em ecossistemas.

Do ponto de vista financeiro, a COP17 reforçou uma mensagem central: restaurar terras degradadas não é um fardo, mas um investimento estratégico em resiliência, meios de subsistência e prosperidade. O mundo ainda enfrenta um déficit anual de US$ 278 bilhões para restauração de terras e fortalecimento da resiliência à seca, mas a conferência avançou ao lançar o Mecanismo de Investimento para a Resiliência à Seca (da sigla em inglês DRIF), o primeiro instrumento financeiro global dedicado exclusivamente a esse tema, concebido para ajudar países a migrar da resposta emergencial a crises de seca para a preparação prévia a elas.

Somaram-se a esse avanço cerca de US$ 1,3 bilhão em recursos novos ou em fase de estruturação, anunciados por governos, bancos de desenvolvimento, fundos de investimento e empresas para projetos de restauração e resiliência à seca em 23 países. Outro sinal relevante veio da liderança local: povos indígenas, comunidades tradicionais e pastores tiveram papel central nas discussões em Ulan Bator, reforçando que o conhecimento e a gestão comunitária são indispensáveis para restaurar paisagens, um princípio de governança que atravessa também os desafios de financiamento e implementação das COPs de Biodiversidade e Clima.

Essa conexão voltará a aparecer em outubro, quando a COP17 da Biodiversidade realizará o primeiro balanço global sobre o progresso dos países na implementação das metas para 2030 do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal. A discussão chega a um momento particularmente importante porque permitirá olhar não apenas para os compromissos assumidos em 2022, mas para o quanto eles efetivamente avançaram. As lacunas identificadas até agora incluem questões relacionadas à implementação da meta de conservação de 30% do planeta até 2030 (a meta 30x30), ao monitoramento dos impactos dos diferentes setores sobre a biodiversidade e à incorporação da natureza nas decisões para além das políticas ambientais. Planejamento, infraestrutura, financiamento e desenvolvimento econômico também moldam a trajetória dos ecossistemas e precisam incorporar seus impactos e dependências sobre a natureza. Essa integração é especialmente importante porque muitas das decisões tomadas hoje sobre infraestrutura e uso do território produzirão efeitos durante décadas, período em que os impactos das mudanças climáticas também tendem a pressionar ainda mais os sistemas naturais e as populações que deles dependem.

 

Quando chegarmos à 31ª COP do Clima, em novembro, portanto, parte importante do desafio climático já terá passado pelas mesas de negociação das outras duas convenções. No clima, uma das questões centrais continuará sendo como implementar, na velocidade necessária, as decisões já tomadas. Apesar dos avanços nas reuniões preparatórias realizadas em Bonn, ainda existem lacunas importantes, particularmente em adaptação, que terminou sem consenso e deverá ser retomado na COP31. Os mapas do caminho lançados pela presidência brasileira da COP30 para temas como a transição para longe dos combustíveis fósseis, o combate ao desmatamento e a mobilização de financiamento climático continuam sendo uma referência para preservar o ritmo dessa implementação.

A adaptação talvez seja o ponto em que a conexão entre as três agendas se torna mais evidente. Preparar territórios para secas e outros extremos climáticos passa pela forma como manejamos a terra e a água, protegemos ecossistemas e planejamos infraestrutura. A resiliência climática é construída muito antes dos eventos extremos, nas escolhas sobre uso do solo, conservação, restauração, planejamento e investimento. Nesse sentido, as decisões discutidas na Mongólia e na Armênia têm implicações diretas para o que os países conseguirão entregar na agenda climática.

O financiamento atravessa todas essas discussões. Na COP de Desertificação, ampliar investimentos públicos e privados é uma condição para avançar em recuperação e resiliência à seca. Na COP de Biodiversidade, a mobilização de recursos será fundamental para acelerar a implementação das metas para 2030 e alinhar melhor os fluxos financeiros aos resultados positivos para a natureza. Na agenda climática, destravar recursos para adaptação continua sendo um dos principais desafios, com a necessidade de assegurar que o financiamento seja previsível, acessível e capaz de chegar às regiões e populações mais expostas aos impactos das mudanças climáticas.

O mesmo raciocínio se aplica às florestas tropicais. Mantê-las em pé exige mecanismos permanentes capazes de reconhecer seu valor para a estabilidade climática, a biodiversidade e a segurança hídrica. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, o TFFF, representa uma oportunidade de criar incentivos econômicos de longo prazo para a conservação, ao mesmo tempo em que pode fortalecer economias locais e ampliar o reconhecimento do papel de povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção desses territórios. É uma solução que ajuda a mostrar por que separar financiamento climático, conservação da biodiversidade e desenvolvimento dos territórios pode significar perder justamente as oportunidades de maior impacto.

Há também uma questão institucional importante. As três convenções possuem mandatos próprios e processos de negociação distintos, mas os governos que assumem compromissos nesses espaços precisam transformá-los em políticas dentro dos mesmos territórios. Isso exige maior coordenação entre áreas responsáveis por meio ambiente, finanças, planejamento e infraestrutura e uma visão capaz de conectar compromissos internacionais às decisões nacionais e locais de desenvolvimento. A coerência entre as agendas ambientais precisa, cada vez mais, se transformar em coerência entre políticas públicas.

O calendário de 2026 oferece uma oportunidade concreta para transformar compromissos internacionais em ações coordenadas de restauração, conservação e adaptação. Diante de um cenário de eventos extremos mais intensos e de pressões crescentes sobre os ecossistemas, o desafio já não é apenas estabelecer novas metas. É criar as condições políticas e financeiras para implementar aquilo que os países já reconheceram como necessário e fazer com que agendas que se encontram na natureza também se encontrem nas decisões de governos, instituições financeiras  demais atores responsáveis por colocá-las em prática.

Publicado originalmente em Galileu
02 de setembro de 2026
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