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Restaurar áreas degradadas sem plantar mudas? Como a natureza pode ser aliada para recuperar florestas no Brasil

Por: Rubens Benini TNC Brasil, Mateus Motter Dala Senta MMA e Isabelle Pepe IIS-Rio.

Floresta tropical densa com árvores de grande porte sob céu nublado, destacando a exuberância da vegetação amazônica.
REGENERAÇÃO NATURAL ASSISTIDA Biomas como a Amazônia concentram grandes proporções de áreas de recuperação nativa © João Ramid

O Brasil assumiu um compromisso ambicioso: recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, como parte do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG). Para se ter uma ideia, isso equivale a quase duas vezes o território do estado do Rio de Janeiro. Essa meta envolve desde áreas protegidas por lei, como margens de rios e reservas legais em propriedades rurais, até terras públicas e regiões produtivas que podem integrar conservação e geração de renda.

O problema? Fazer isso em larga escala, com custo viável e respeitando a diversidade de realidades socioambientais do extenso território brasileiro. É aqui que entra uma estratégia que desafia a visão tradicional da restauração: restaurar a vegetação nativa, sem necessariamente plantar mudas ou árvores. E se, em vez de plantar uma área inteira, o primeiro passo fosse permitir que ela se recupere sozinha?

Grande parte da restauração no Brasil não começa do zero. Em diversas regiões, a natureza já está em processo de auto recuperação via regeneração natural da vegetação nativa. Essas áreas somam cerca de 31 milhões de hectares no país, o equivalente a 6,1% da vegetação nativa brasileira.

Biomas como Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga concentram grandes proporções dessas áreas, resultado de ciclos históricos de uso e abandono do solo. Mesmo em biomas onde sua presença é menor, como no Pampa e no Pantanal, essas áreas representam oportunidades importantes.

A grande pergunta é: se a natureza já está se regenerando, por que não ajudá-la — em vez de começar tudo do zero? Tradicionalmente, restaurar uma área significa plantar milhares de mudas. Esse tipo de intervenção é essencial em áreas muito degradadas, mas costuma ser caro: pode passar de R$ 20 mil por hectare.

Já a chamada Regeneração Natural Assistida (RNA) propõe uma alternativa. Em vez de plantar tudo novamente, a estratégia busca acelerar e proteger o processo natural de regeneração que já está em curso, sempre considerando se a técnica é viável para aquela área específica, algo que depende do histórico de degradação e de boas condições ecológicas da paisagem ao redor.

Na prática, isso envolve eliminar fatores que impedem a regeneração, como queimadas recorrentes e a presença de gado, além de controlar gramíneas invasoras e proteger a área contra novas pressões ambientais. Ainda assim, a regeneração natural exige análise técnica criteriosa e, em alguns casos, ações complementares, como enriquecimento com espécies ausentes.

Com isso, os custos podem cair significativamente. Estimativas indicam valores entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por hectare, dependendo do contexto. Mais do que uma economia de recursos, trata-se de uma mudança estratégica: escolher o método adequado pode determinar se a restauração será viável em larga escala.

Recentemente, o Brasil deu um passo importante para transformar essa abordagem em política pública. Uma resolução da Comissão Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (CONAVEG) passou a orientar o uso da regeneração natural assistida em projetos e iniciativas de restauração. Na prática, isso significa que governos estaduais, licenciadores e implementadores agora têm diretrizes mais claras sobre quando e como adotar esse método.

Pode parecer técnico, mas o impacto é direto: até pouco tempo atrás, projetos podiam ser rejeitados simplesmente por não seguirem o modelo tradicional de plantio de mudas. Sem referência oficial, a RNA ficava à margem. Agora, isso muda. O Brasil, inclusive, se posiciona na vanguarda internacional ao institucionalizar esse método — algo que ainda não é comum em outros países.

Essa mudança é especialmente relevante para quem está no campo. Uma parte significativa da vegetação secundária está dentro de propriedades privadas. Ao reconhecer a regeneração natural assistida como estratégia válida, produtores passam a ter caminhos mais acessíveis para regularizar suas áreas, atender à legislação ambiental e até acessar crédito e mercados que valorizem práticas mais sustentáveis. Além disso, abre-se espaço para novos modelos de financiamento, conectando a restauração a mercados de carbono, cadeias produtivas sustentáveis e iniciativas de bioeconomia.

Mas é importante deixar claro: não existe solução única. Áreas muito degradadas ainda precisam de plantio e intervenções intensivas. A diversidade de contextos exige diferentes estratégias de restauração. Transformar a regeneração natural em política pública não foi um processo simples nem individual. A construção dessas diretrizes envolveu governo federal, instituições técnicas, organizações da sociedade civil e especialistas, em um esforço conjunto de revisão científica, experiências práticas e diálogo.

Ainda há desafios relevantes pela frente. A nova diretriz não resolve, sozinha, o desafio da restauração no Brasil. Ainda será preciso avançar em diagnósticos de campo, monitoramento e capacidade técnica nos estados e municípios. Mas ela aponta para um caminho mais inteligente: trabalhar junto com os processos naturais e seu tempo na natureza.

Ao ampliar o leque de métodos e técnicas de restauração e reconhecer o potencial de regeneração natural que já existe no território, o Brasil aumenta suas chances de transformar metas ambiciosas em realidade concreta. E talvez a grande lição seja muito simples e já muito conhecida por quem vive no campo: restaurar florestas nem sempre começa com plantar mudas — às vezes, começa com olhar para o que já está se regenerando.

Este artigo foi escrito por Rubens Benini, Diretor de Florestas da TNC Brasil, Mateus Motter Dala Senta, analista ambiental do MMA e Isabelle Pepe, analista de sustentabilidade do IIS-Rio e publicado originalmente em Revista Galileu