Artigos e Estudos

Como o crédito está viabilizando a agricultura sem desmatamento

Trator aduba plantação verde sob céu amplo e nublado, em paisagem rural de horizonte aberto e vasto.
AGRICULTURA Trator aduba plantação verde sob céu amplo e nublado, em paisagem rural de horizonte aberto e vasto. © Irra Films

O agro brasileiro entra em uma nova fase em que critérios ambientais deixam de ser apenas compromissos declarados e passam a estruturar, de forma concreta, seus modelos de negócios. Não se trata mais apenas de pressão externa ou compromisso voluntário. Cada vez mais, o acesso a crédito, o custo de capital e a inserção em cadeias globais estão diretamente condicionados a critérios de rastreabilidade e desmatamento zero. A transição já começou, mas não acontece de forma homogênea, e o principal desafio hoje já não é mais técnico, mas sim distributivo.

É nesse contexto que iniciativas como o IFACC (Inovação Financeira para Amazônia, Cerrado e Chaco), ganham relevância ao conectar compromissos ambientais às operações financeiras do setor. A coalizão reúne bancos, investidores, empresas e organizações para estruturar instrumentos financeiros voltados à produção livre de desmatamento. Mais do que um fórum, funciona como um laboratório aplicado de crédito, testando na prática como transformar compromissos ambientais em operações viáveis. 

Os números mostram que esse experimento deu certo. Desde 2021, já foram desembolsados US$ 954 milhões em produtos financeiros alinhados a esse modelo, praticamente atingindo a meta inicial de US$ 1 bilhão até o fim de 2025. Em um cenário de juros elevados, esse volume indica que o mercado encontrou uma lógica econômica consistente para a transição. O Brasil superou o debate sobre a viabilidade de financiar uma agricultura sem desmatamento e passou a operar esse modelo em escala relevante. 

Esse avanço foi construído com base em instrumentos que conectam sustentabilidade e resultado financeiro. Produtos como o Reverte, Mecanismo Amazônia Viva e as linhas do Itaú ESG Agro mostram que, quando o crédito vem com assistência técnica, prazos adequados e previsibilidade, os produtores adotam práticas mais sustentáveis não por obrigação, mas porque isso melhora a produtividade, reduz risco e amplia acesso a capital. A avaliação de impacto confirma esse movimento, com relatos consistentes de ganhos produtivos e intenção de repetir o uso dessas linhas. 

Os resultados são concretos. Mais de 668 mil hectares já operam sob critérios livres de desmatamento, com ganhos adicionais em restauração de áreas degradadas e proteção de vegetação nativa. Isso indica que a lógica do financiamento já saiu do piloto. Mas também revela onde o modelo ainda não chega. 

O primeiro limite é geográfico. Cerca de 97,8% dos recursos foram direcionados ao Cerrado, enquanto apenas 2% chegaram à Amazônia. O capital segue onde há menor risco e maior previsibilidade, o que limita o alcance no bioma onde a transição também é urgente, porém, mais complexa. 

O segundo gargalo está no perfil dos beneficiários. Produtores médios e pequenos continuam com acesso restrito. Exigências financeiras, estruturas complexas e custos de transação ainda funcionam como barreiras, indicando a necessidade de modelos mais simples e adaptados. 

Há também um desafio operacional relevante. Burocracia, tempo de aprovação e exigências de monitoramento pesam na decisão de crédito. Em muitos casos, o produtor opta por linhas tradicionais simplesmente por serem mais simples e rápidas. Soma-se a isso uma dimensão cultural importante. Parte dos produtores ainda enxerga critérios de desmatamento zero como imposição, e não como oportunidade econômica, o que reforça o papel de incentivos claros, comunicação adequada e assistência técnica contínua. 

No próximo estágio, a transição entra em um momento decisivo. A agenda deixa de ser provar conceito e passa a ser ganhar escala. O segundo leilão do Eco Invest, voltado à recuperação de pastagens degradadas, sinaliza essa virada ao conectar política pública, crédito e produtividade em uma frente em que o impacto ambiental e econômico se reforçam. Em paralelo, o lançamento do CCAT como provedor de capital catalítico, com um primeiro fechamento de US$ 50 milhões, aponta para um novo patamar de sofisticação financeira, reduzindo riscos e permitindo que esses produtos cheguem a volumes maiores. Os recursos do Eco Invest e do CCAT pussem termos e condições que viabilizam a estruturação de produtos financeiros com incentivos claros para os produtores intensificarem a produção nas suas áreas. O mercado de financiamento agropecuária tem a oportunidade de usar esses mecanismos para ampliar alcance, corrigir assimetrias e acelerar a transição onde ela ainda não acontece. 

O programa Caminho Verde do governo brasileiro tem a meta de recuperar 40 milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade ao longo dos próximos dez anos. A demanda do segundo leilão do Eco Invest se propõe a entregar restauração produtiva de cerca de 1,4 milhão de hectares e o CCAT 0,5 milhão de hectares. A expectativa é que o aumento de produtividade nessas áreas intensificadas, aliado a políticas de comando e controle, compromissos setoriais de originação responsável e descarbonização das cadeias de suprimentos, reduza a pressão sobre áreas de vegetação nativa. 

O IFACC 2025 Market Report deixa uma mensagem clara. O Brasil já construiu um ecossistema funcional de finanças para a agricultura livre de desmatamento. O desafio agora é fazer com que ele deixe de ser concentrado e passe a ser inclusivo.  

Os US$ 954 milhões mobilizados até agora mostram que há viabilidade e demanda. O que está em jogo é garantir que essa transição não aconteça apenas onde já é mais fácil, mas também onde ela é mais necessária.

 

Publicado originalmente em Investing
10 de junho de 2026

Ver original