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Com possibilidade de super El Niño, assistência técnica rural se torna defesa essencial do Cerrado contra a seca

Por Isabel Garcia Drigo, Regenerative Ranching and Agriculture Manager – Cerrado.

Vista aérea de propriedade rural no Cerrado durante a seca, com pastagens e fragmentos de vegetação nativa.
Assistência Técnica Rural Com possibilidade de super El Niño, assistência técnica rural se torna defesa essencial do Cerrado contra a seca © Irra Films

Os sinais da ciência climática deixaram de ser sutis. Em 11 de junho, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial. A confirmação reforça previsões recentes do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia. As projeções indicam aquecimento acima de 2 °C entre julho e novembro, chegando a 3 °C acima da média no fim do ano, com possibilidade de um dos eventos mais intensos já registrados. O calor acumulado no Pacífico já é mais que o dobro do registrado no mesmo período que antecedeu o El Niño de 2023. Naquele ano, mais de 30 milhões de hectares foram perdidos devido aos incêndios no Brasil, área maior que a Itália. O Cerrado, especialmente o Vale do Araguaia, está entre as áreas mais vulneráveis. 

Para o campo brasileiro, 2026 exige preparação. Para o Cerrado, o alerta do clima coincide com o período mais sensível do calendário rural: a estação seca. O risco não é apenas menos chuva, mas também sua irregularidade. Neste bioma, em anos de El Niño, as chuvas podem atrasar, falhar no meio da estação chuvosa ou terminar antes do esperado, impactando diretamente a produção.  

No campo, não basta saber quanto vai chover, mas também quando e onde. Um veranico no meio da safra pode comprometer o plantio, e o encerramento precoce das chuvas reduz a formação das pastagens. Na pecuária, os impactos são imediatos: menos capim, menor capacidade de suporte, perda de peso do rebanho e aumento de custos. 

Este é o ponto central da discussão: os reflexos da estiagem tendem a variar de uma propriedade para outra. Áreas sujeitas à mesma adversidade costumam apresentar desempenhos distintos. O desfecho passa pelo fenômeno climático, mas está, sobretudo, na capacidade de preparação, ou seja, na assistência técnica rural. Com o avanço do El Niño, essa diferença tende a aumentar. 

Não se trata de solução abstrata nem de promessa distante. Assistência técnica pode transformar informação em decisão. É o trabalho técnico continuado que orienta o momento correto de vedar o pasto, a necessidade de recuperar uma área degradada, a melhor forma de proteger uma nascente, o planejamento da alimentação do rebanho e a estocagem de forragem antes que a seca se agrave. Na prática, é gestão de risco climático aplicada à propriedade. 

Os dados confirmam esse papel, e a quantificação mais direta vem da renda. Estudo da Emater-DF indicou aumento médio de R$ 490,54 mensais na renda de produtores atendidos. O recorte é o das pequenas propriedades familiares, e é justamente isso que torna o número expressivo: o impacto atribuído à orientação técnica equivale a cerca de 40% do valor bruto da produção dessas unidades.  Outros estudos também evidenciam ganhos de produtividade. 

No Vale do Araguaia, em Mato Grosso, o projeto Boas Práticas na Pecuária, conduzido pela The Nature Conservancy (TNC) Brasil em parceria com o Sebrae-MT, registrou, em seu primeiro ciclo, aumento de 28,3% na produtividade e de 41,6% no faturamento das propriedades. Também houve outros ganhos relevantes, como a recuperação de áreas degradadas e proteção de nascentes, justamente o tipo de ação que faz diferença quando a estiagem se prolonga. 

A mensagem é simples e poderosa: é possível produzir, conservar e reduzir vulnerabilidades sem abrir novas áreas. O desafio é ampliar o acesso. Segundo o último Censo Agropecuário, apenas 18,2% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros declararam receber orientação técnica. Em outras palavras, a melhor defesa disponível contra o El Niño que se anuncia permanece distante da maioria de quem mais precisa dela. 

Estes dados mostram que a adaptação climática não depende apenas de grandes obras de infraestrutura, como barragens, açudes e canais de irrigação, crédito, seguro rural ou novas tecnologias. Depende também do conhecimento aplicado dentro das propriedades. E ele faz diferença não só contra a seca, mas também contra a ameaça que costuma vir junto com ela. 

No Cerrado, a seca aumenta o risco de incêncios. Em 2024, foram 9,7 milhões de hectares queimados, aumento de 47% em relação à média dos seis anos anteriores, com pico na estação seca. Preparar a propriedade para o fogo é parte do mesmo conjunto de ações de enfrentamento do super El Niño que começa na assistência técnica.  

É nesse ponto que o Manejo Integrado do Fogo se torna essencial. O modelo combina planejamento, prevenção e participação local para reduzir a severidade dos incêndios antes que saiam de controle. Há evidências de redução significativa de áreas queimadas sob esse modelo. E funciona. Um estudo publicado na Environmental Research Letters, com coautoria do ICMBio e do Prevfogo/Ibama, mediu redução de 62% na área queimada em unidades de conservação do Cerrado sob manejo integrado do fogo. No Mato Grosso, o caso é concreto: no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, incêndios que já consumiram mais de 14 mil hectares de uma só vez recuaram, com o manejo, para poucos hectares nos anos seguintes. A lógica é antecipar riscos.  

 Ampliar a assistência técnica é, portanto, uma estratégia de adaptação climática. É investimento com retorno produtivo e ambiental. E que protege também quem vive longe do campo: quando a seca derruba a produção, o efeito chega às cidades na forma de alimento mais caro.  

Uma propriedade mais preparada é mais resiliente. Solo coberto, pastagens bem manejadas, nascentes protegidas, áreas degradadas em recuperação e fogo sob controle são parte da capacidade produtiva. Biodiversidade e produtividade caminhando lado a lado quando há manejo, planejamento e orientação técnica.  

O “super El Niño”  colocará à prova a capacidade de antecipação e resposta no território. As previsões podem variar em gradação, de um evento intenso como os já registrados a um episódio sem precedentes. O que não varia é a direção: a estação seca que vem aí exigirá mais de cada propriedade. A questão é levar esse conhecimento a tempo para quem precisa.