O caminho da Terra do Meio para reconhecer quem conserva a Amazônia
Entre castanhais, agroflorestas e rios, uma nova economia começa a ganhar forma
O dia ainda amanhece na Terra do Meio quando as primeiras voadeiras cortam as águas dos rios da região. Em algumas comunidades, homens e mulheres seguem para a coleta de castanha. Em outras, famílias organizam a produção que abastecerá escolas e programas públicos de alimentação. O trabalho começa cedo, como acontece há gerações.
Por trás dessa rotina existe algo que nem sempre aparece nos mercados, nos balanços financeiros ou nas políticas públicas: a conservação da floresta que torna tudo isso possível.
A RTM é um arranjo de pessoas entre extrativistas, ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares. Um grupo de pessoas lutando pelo mesmo objetivo, que é de ter autonomia própria, de ter sua própria produção reconhecida e valorizada.
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Doe para a natureza"As castanhas daqui eram do meu avô, que criou meu pai, e meu pai nos criou. Estamos criando nossos filhos com a mesma castanheira que está dando aqui há 100 anos”, comenta Raimunda Rodrigues, extrativista e liderança da comunidade Rio Novo, na região da Terra do Meio. “Quando a castanheira está em pé, ela rende mais, tanto no ar que a gente respira, na chuva que vem no tempo certo, quanto na própria fruta que ela dá”, conclui Raimunda.
Localizada no estado do Pará, a região da Terra do Meio abriga um dos maiores blocos contínuos de áreas protegidas da Amazônia brasileira. Rios, florestas e territórios coletivos formam uma paisagem de importância estratégica para a conservação da biodiversidade, para a regulação do clima e para a manutenção de modos de vida que dependem diretamente dos recursos naturais.
A região é também um importante exemplo de como conservação e produção podem caminhar juntas. Ali, comunidades mantêm sistemas produtivos tradicionais que combinam agricultura de pequena escala, manejo florestal, coleta de produtos da sociobiodiversidade e proteção de áreas naturais.
Foi justamente para fortalecer essas comunidades e ampliar sua capacidade de prosperar mantendo a floresta em pé que surgiu uma das articulações territoriais mais relevantes da Amazônia brasileira: a Rede Terra do Meio (RTM). Formada por indígenas, extrativistas, ribeirinhos e agricultores familiares, a rede conecta diferentes povos e territórios em torno de um objetivo comum: fortalecer a governança local, valorizar os modos de vida tradicionais e criar oportunidades econômicas alinhadas à conservação da floresta.
Ao longo dos anos, a RTM se consolidou como um espaço de cooperação entre comunidades que compartilham desafios semelhantes, mas também conhecimentos, estratégias e soluções para transformar a sociobiodiversidade em desenvolvimento. A articulação apoia desde a organização da produção e o acesso a mercados até a participação em políticas públicas e mecanismos de financiamento para a conservação.
“A RTM é um arranjo de pessoas entre extrativistas, ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares. Um grupo de pessoas lutando pelo mesmo objetivo, que é de ter autonomia própria, de ter sua própria produção reconhecida e valorizada”, afirma Raimunda.
Entre os muitos exemplos que dão vida a essa rede está a trajetória do agroextrativista José Santiago da Silva, no município de Uruará, no Pará.
Santiago fundou a Aasflor, Associação Agroextrativista Sementes da Floresta, que reúne agricultores familiares de assentamentos da reforma agrária para promover a produção e o beneficiamento sustentável de produtos como como óleos, manteigas corporais e sementes nativas para restauração. “Nossa ideia é absorver a produção da região, produzir os produtos a partir deles e agregar renda para as famílias”, afirma Santiago.
Reconhecer aquilo que a floresta oferece ao mundo
Histórias como as de Raimunda e Santiago mostram que conservar a floresta não é uma atividade separada da produção ou da geração de renda. Mas elas também revelam um desafio compartilhado: embora esses territórios produzam benefícios ambientais que alcançam muito além da Amazônia, esse trabalho nem sempre é reconhecido pelos sistemas econômicos tradicionais.
Em muitas partes da Amazônia, as comunidades responsáveis pela proteção de grandes extensões de floresta ainda encontram dificuldades para acessar mercados, crédito, assistência técnica e mecanismos de incentivo econômico.
Enquanto o planeta se beneficia dos serviços ambientais fornecidos pela floresta, como armazenamento de carbono, proteção da biodiversidade, regulação hídrica e segurança climática, os guardiões desses territórios raramente recebem compensação proporcional por esse trabalho.
Por isso, durante a COP30 em Belém a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (SEMAS/PA) e o FUNBIO, assinaram projeto para realizar um piloto de PSA na Terra do Meio através de recursos do Fundo Multidoador da Amazônia (AMDTF), administrado pelo BID, contando com a The Nature Conservacy (TNC) Brasil como assessoria técnica e com a participação ativa da Rede Terra do Meio (RTM) e de outras organizações parceiras. O projeto apoiará a construção de um modelo de PSA voltado especificamente para territórios coletivos, contribuindo para a construção do Programa de PSA do estado do Pará.
O piloto PSA busca reconhecer os benefícios gerados por práticas tradicionais de produção, manejo e conservação dos territórios da Terra do Meio. Entre esses benefícios estão a conservação através da sociobiodiversidade, a manutenção da fertilidade dos solos, o fortalecimento da governança territorial, a produção sustentável de alimentos e o manejo tradicional dos recursos naturais.
Na prática, o PSA funciona como uma estratégia integrada que conecta conservação, inclusão social, fortalecimento comunitário e desenvolvimento econômico.
Os números por trás da transformação
Embora o piloto estadual de PSA para territórios coletivos ainda esteja em fase de construção, a trajetória da RTM já apresenta resultados concretos que evidenciam a capacidade dos mecanismos financeiros de fortalecer a conservação ambiental, a produção sustentável e a permanência das comunidades em seus territórios.
A experiência da RTM já alcança:
- mais de 230 aldeias e comunidades;
- cerca de 6.000 pessoas impactadas;
- 20 associações articuladas;
- aproximadamente 10,8 milhões de hectares de floresta abrangidos;
- mais de 80 produtos da sociobioeconomia com acesso a mercado.
Ao longo do último ano, a Rede Terra do Meio, em parceria com a TNC Brasil, desenvolveu um modelo piloto de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), com pagamentos vinculados a cadeias da sociobioeconomia específicas de territórios de comunidades indígenas, ribeirinhas e da agricultura familiar.
O piloto de PSA das cadeias da sociobiodiversidade da Rede Terra do Meio registrou:
- R$ 400 mil pagos por meio do modelo piloto;
- 700 famílias atendidas;
- 170 aldeias e comunidades beneficiadas;
- cerca de 4.700 pessoas alcançadas diretamente.
Os resultados vão além dos números. Quando comunidades conservam seus territórios e modos de vida, elas mantêm sistemas produtivos capazes de abastecer políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
O resultado é uma cadeia virtuosa: conservação gera alimentos; alimentos geram renda; renda fortalece comunidades; comunidades fortalecidas reduzem a pressão por atividades predatórias.
“O objetivo é construir um modelo capaz de reconhecer o papel central das comunidades na conservação dos territórios e criar bases para mecanismos permanentes de financiamento”, segundo Marina Aragão, líder de Economia e Finanças para Amazônia da TNC Brasil.
Quando a experiência local inspira políticas públicas
Embora tenha raízes na Terra do Meio, a iniciativa foi concebida para gerar aprendizados replicáveis.
Uma das contribuições mais importantes do PSA em Territórios Coletivos é mostrar que soluções territoriais podem influenciar decisões em escala estadual.
Os aprendizados acumulados na Terra do Meio vêm ajudando a estruturar o Programa Estadual de PSA para Territórios Coletivos do Pará, contribuindo para a definição de sua governança, critérios técnicos, monitoramento, transparência e arquitetura financeira. O estado busca transformar experiências concretas desenvolvidas em territórios do estado, como o piloto PSA, em referências para a implementação da política pública em escala.
Entre os avanços recentes dessa construção estão a formalização da Câmara Técnica Permanente de PSA (CT-PSA) no âmbito do COGES-Clima (Comitê Gestor do Clima) e a definição inicial de fluxos decisórios para o programa. A CT-PSA atua como espaço permanente de articulação e assessoramento técnico, reunindo atores governamentais, representações de povos e comunidades, sociedade civil e parceiros estratégicos para discutir critérios, prioridades e recomendações para a estruturação e futura implementação do Programa de PSA do Pará.
A experiência também ajudou a fortalecer a própria Rede Terra do Meio.
Com apoio da cooperação estabelecida ao longo dos anos, a organização conquistou o segundo lugar no edital Prospera Sociobio, programa nacional de sociobioeconomia do Ministério do Meio Ambiente, assegurando aproximadamente R$ 12 milhões para apoiar sua operação pelos próximos cinco anos.
O caso demonstra como investimentos em governança comunitária podem gerar impactos duradouros, muito além de um único projeto.
O futuro nasce onde a floresta continua viva
Ao final do dia, quando as canoas retornam e o movimento diminui nas comunidades da Terra do Meio, fica evidente que a floresta não é apenas uma paisagem a ser protegida. Ela é uma fonte de vida, conhecimento e oportunidades.
Mais do que criar um mecanismo financeiro, o PSA Territórios Coletivos busca fortalecer uma relação antiga entre pessoas e natureza, mostrando que desenvolvimento e conservação não precisam seguir caminhos opostos.
“É uma conscientização. Eu não preciso derrubar a floresta, eu posso cuidar dela que ela vai me agregar valor com ela em pé”, afirma Antonio Meireles, agroextrativista, membro da Aasflor e da RTM.
Na Terra do Meio, essa visão já começou a sair do papel. E os resultados sugerem que algumas das soluções mais importantes para o futuro da Amazônia podem nascer justamente de quem a protege há gerações.